Aos meus filhos Francisco, Pedro e Maria Luiza
Tornou-se clássica a consideração da existência de cinco estirpes na origem da Nobreza de Portugal. Os trabalhos do Doutor José Mattoso, levados à cabo com paciência monástica ao longo de décadas em muito contribuíram para esta instigante busca de origens da Nobreza de Portugal[1].
O primeiro exemplo de nobiliário conhecido em Portugal foi o chamado Livro Velho de Linhagens, atribuído a um religioso do Mosteiro de Santo Tirso, escrito em galego-português na segunda metade do século XIII. No seu prólogo o autor declara o propósito de demonstrar a origem das principais famílias de Portugal.
Eis a fonte:
«Agora amigos se vos plaze vos contaremos os linhagens dos bons homens filhos-dalgo do Reyno de Portugal dos que devem a armar e criar e que andarão a la guerra a filhar o reyno de Portugal. E eles, meos amigos, forão partidos em cinco partes.
A primeira parte foi el UFFO BELFAGES, donde vem directamente os SOUSÕES.
A segunda parte D. ALAN que foi clérigo filho-dalgo, e filhou a filha d´elrey de Armenia quando foi em oração a Santiago e foi sa hospeda em são Salvador de Crasto de Avelãs, e filhouha com seu linhagem, e enviou as companhas suas para sa terra, e ficou elle com ella, e fege nella dous filhos donde vierão os linhagens dos BARGANÇÕES, e despois vos diremos como ouveram nome, e quaes sahirão deles.
A terceira geraçom forão os da MAYA[2], que forão os mais nobres e os mais filhos-dalgo de toda Espanha, e como eles vieram directamente do mi nobre e muyto alto senhor D. RAMIRO, e em como elles consagrarom com os BARGANÇÕES, e em como vierom direytamente do mui nobre e muy alto linhagem del conde D. MONIO de BISCAYA, e em como consograrão com os condes de Trava, e em como casarão as netas com os netos de D. MONIO lo GASCO.
A quarta geraçom forão de BAYÃO, netos de D. GOZENDO ARALDES; e despois vos diremos quaes filhos e quaes netos sahirão deles, e em como se virão casados.
A quinta geraçam, que veo postrimeira a Portugal de Gasconha com MONIO GASCO, donde vem os que ora chamão RIBA DOURO»[3].
As origens das grandes famílias, portanto, estariam em cinco linhagens de grande prestígio e antiguidade, que teriam sido, historicamente, as fundadoras do Reino, coadjuvando a Família Real. Os Sousões[4], os Braganções[5], os Maia[6], os Baião[7] e os Ribadouro[8] estariam, assim, intimamente vinculados aos primórdios da formação do Reino de Portugal.
Estas brevíssimas considerações genealógico-históricas ficam enriquecidas se voltarmos a nossa atenção para a vexata quaestio da hereditariedade.
Uma viagem a Roma, ao Vaticano, durante a II Grande Guerra não será supérflua.
O Papa Pio XII, em discurso à Nobreza e ao Patriciado Romano, proferido no ano de 1941, afirmou:
«Dessa grande e misteriosa coisa que é a hereditariedade — quer dizer, o passar através de uma estirpe, perpetuando-se de geração em geração, um rico acervo de bens materiais e espirituais; a continuidade de um mesmo tipo físico e moral, conservando-os de pai para filho; a tradição que une através dos séculos os membros de uma mesma família — dessa hereditariedade, dizemos, pode-se sem dúvida distorcer a verdadeira natureza com teorias materialistas.
Mas pode-se também, e deve-se, considerar essa realidade de tão grande importância, na plenitude de sua verdade humana e sobrenatural. Por certo, não se negará à transmissão dos caracteres hereditários um ‘substractum’ material; surpreender-se com tal fato equivaleria a esquecer a união íntima de nossa alma com nosso corpo, e em quão larga medida nossas mesmas atividades mais espirituais dependem de nosso temperamento físico. Por isso, a moral cristã não deixa de lembrar aos pais as graves responsabilidades que lhes incumbem a tal respeito.
Mas o que mais vale é a herança espiritual, transmitida não tanto por esses misteriosos liames da geração material, quanto pela ação permanente daquele ambiente privilegiado que constitui a Família. Esta última leva a cabo a lenta e profunda formação das almas, na atmosfera de um lar rico de altas tradições intelectuais, morais e sobretudo cristãs. E para tal fim se serve da mútua influência existente entre os que moram em uma mesma casa, influência essa cujos benéficos efeitos se prolongam — muito além da infância e da juventude, até alcançar o termo de uma longa vida — nas almas eleitas que sabem fundir em si mesmas os tesouros de uma preciosa hereditariedade com o contributo de suas próprias qualidades e experiências. Esse é o patrimônio, mais do que todos precioso, que, iluminado por uma fé firme e vivificado por uma sólida e fiel prática de vida cristã em todas as suas exigências, elevará, aprimorará e enriquecerá as almas de vossos filhos»[9].
Neste excerto do belíssimo discurso o sumo pontífice assevera as forças misteriosas da hereditariedade. De facto são misteriosas, tendo em conta que mesmo em nossos dias os mais competentes e idôneos biólogos[10] não conseguiram concluir definitivamente as regras que presidem a controversa questão da hereditariedade. Entretanto, a hereditariedade é um facto relevante que pode e deve ser observado sob diversos ângulos e perspectivas.
Cada homem carrega um sem-número de hereditariedades. De facto todos são a resultante biológica de uma imensidade de correntes de vida que chegaram a cada um como o seu ponto de encontro. Nos lagos, em regra, desaguam diversos rios. Em cada homem desaguam diversas hereditariedades. A metáfora é clara, afinal somos receptáculos em que várias correntes do passado se fundem.
A Hereditariedade física é facilmente observável pela semelhança de traços, pela transmissão da saúde e de doenças; transmissão da beleza ou da fealdade; da graça e da elegância ou do desgracioso e do deselegante. São claras manifestações de hereditariedades. Conhecemos certas famílias que timbram pelo bom gosto no trajar-se; outras, pelo mau gosto. A descrição da família Guermantes-Courvoisier de Proust é notável nesta matéria: declarava que estavam sempre na penúltima moda. Estes tópicos, embora muito relacionados com a hereditariedade física, são ainda mais profundamente relacionados com a mental.
Relembremos com Pio XII que o homem é corpo e alma…
Deus cria as almas para os corpos, e cada uma das almas é criada com adequação para um determinado corpo. Assim, havendo hereditariedade física, Deus a respeita, criando almas hereditariamente semelhantes aos corpos que irão nascer. Se bem que a alma não seja transmitida dos pais para os filhos, mas infundida por Deus, há uma continuidade na sua obra. Pode-se atestar numa Família uma série de disposições de alma, puramente espirituais, mas também ligadas a este fenómeno da hereditariedade.
Tem-se, desta forma, uma realidade que na Família atravessa gerações: a transmissão de um conjunto de predicados físicos e morais. Essa transmissão é o primeiro núcleo daquilo a que se chama Tradição. O primeiro dado da Tradição é a transmissão de caracteres físicos e morais.
Achamo-nos diante de um dos factos primordiais da História da humanidade.
Quando – no caso português – em meio às lutas da Reconquista Cristã, as Famílias se reuniram para resistir em meio a inúmeras dificuldades e pugnar, aí começaram a nascer diversas estirpes.
Uma estirpe é algo diverso da Família, vai para além, transcende! O que é uma Família? É a união de Pai, Mãe e filhos. Havendo Pais legítima e canonicamente casados há Família.
A estirpe, contudo, é bem distinta. Ela é uma fonte originária, nascida de um homem-estirpe. Que é um homem-estirpe? É aquele que funda uma estirpe, é um homem que possui uma personalidade extremamente vigorosa e concebe uma Família que mantém a hereditariedade de seus principais traços morais e físicos; é um homem que traslada aos seus uma formação suficientemente forte para que o impulso inicial que acaba por comunicar a uma determinada ordem de coisas, persiste depois dele, ou seja, o transcende; trata-se de um homem que funda uma Escola de modos de sentir, de agir, de ser, de vencer dificuldades, enfim, formas de lutar neste vale de lágrimas; que funda uma maneira de viver. Poder-se-ia levantar a hipótese de que é preciso ter muito mais personalidade para fundar uma estirpe do que para governar um Estado. O governo poderá ser levado a cabo por um político hábil. Todavia, para fundar uma estirpe é preciso ter uma personalidade pujantíssima; e para que ela seja lançada em sentido sadio, é preciso que seja pujantemente sadia.
O admirável na história da Europa em geral, e na Reconquista na península ibérica em especial, é que as Famílias, lançadas em grandes e difíceis batalhas, reagiram; e formaram-se estirpes por toda a parte. Estirpes que nascem e marcam séculos de História, nascem em meio à luta e muitos infortúnios. E pelo seu vigor natural e, sobretudo, pela correspondência de seus membros à Graça de Deus, aquelas Famílias deram origem às Famílias da Nobreza, e este conjunto de Famílias erigiu a Cristandade[11]. *Ibsen Noronha
[1] Os principais trabalhos são: As Famílias Condais portucalenses nos séculos X e XI, Porto, 1970; Ricos-Homens, Infanções e Cavaleiros – A Nobreza medieval portuguesa nos séculos XI e XII, Lisboa, 1982; A Nobreza Medieval Portuguesa. A Família e o Poder, Lisboa, 1981; Identificação de um País. Ensaio sobre as origens de Portugal – (1096-1325), 2 volumes, Lisboa, 1985; e Os Livros de Linhagens Portugueses e a Literatura Genealógica da Idade Média, Separata da Revista Armas e Troféus, Lisboa, 1976. Formou-se, a partir destas obras, uma escola profícua sobre o tema da nobreza medieval portuguesa.
[2] Sobre esta linhagem ver Francisco Antônio Dória, A Semente. Uma hipótese sobre a origem dos senhores da Maia, século X, Edições do Jardim da Casa, 2011.
[3] Portugaliae Monumenta Historica – A Saecvlo Octavo Post Christvm Vsqve Qvintvmdecimvm – Ivssv Academiae Scientiarum Olisiponensis Edita – Scriptores – Volvmen I – Fascicvlcs II, Olisipone – Typis Academicis – MDCCCLX, p. 175. O trabalho de compilação é creditado a Alexandre Herculano. Houve uma nova série dos PMH coordenada por José Mattoso, nos anos 80 do século passado.
[4] Um ínclito representante foi Mendo Gonçalves de Sousa (1140-1192), o Sousão, ou, em diversas fontes, Mem Gonçalves, foi um rico-homem que exerceu os cargos de Alferes-mor – transportando a bandeira real em campanhas e cerimónias públicas – e de mordomo-mor – do segundo rei de Portugal, Dom Sancho I, o povoador. Combateu na conquista de Silves e foi padroeiro do mosteiro de Pombeiro. Era bisneto de Dom Henrique e Dona Teresa, portanto, sobrinho neto de Dom Afonso Henriques. Sobre esta estirpe ver A Capela dos Sousas no Mosteiro da Batalha, fruto de um Colóquio que se realizou em 2012; e Luis Krus, D. Dinis e a Herança dos Sousas. O Inquérito Régio de 1287, Lisboa, Edição Policopiada, 1989 e, do mesmo autor O rei herdeiro dos condes: D. Dinis e a herança dos Sousas. In Luis Krus e José Mattoso – A construção do passado medieval: textos inéditos e publicados, Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, 2011. p. 59-92.
[5] Refiro, à guisa de exemplo de membro notável da estirpe, Fernão Mendes de Bragança, o Velho (1030-1117), foi o 2º senhor de Bragança, filho de Mendo Alão e de uma princesa Armênia, aparece num documento do ano de 1072 como princeps ipsus terre de Chaves. Em 1055 venceu os mouros na nascente do rio Távora, tendo tomado a terra de presúria. Fundou Braganções, depois Bragança, sobre a antiga Brigantia romana. Teria casado com uma filha bastarda de Afonso VI de Leão e Castela. A informação encontra-se no Livro de Linhagens do conde D. Pedro. Sobre a linhagem pode-se consultar José Carlos Soares Machado, Os Braganções – História genealógica de uma linhagem medieval (séculos XI a XIII), Lisboa, 2004.
[6] Importante membro da linhagem foi Soeiro Mendes da Maia (morre entre 1103 e 1108), foi um rico-homem referido num documento do mosteiro de Santo Tirso como Prepotens et nobilissimus omnium Portugalensium (O mais poderoso e mais nobre de todos os portugueses) ao tempo de Dom Henrique, sendo, então, o mais categorizado homem de confiança do conde, havendo governado o condado na sua ausência. Recebeu a doação de Dom Henrique do couto de Santo Tirso em 1097. É avô do Lidador, Gonçalo Mendes da Maia.
[7] Refira-se, entre diversos membros, Afonso Hermiges de Baião que vive entre 1150 e 1200. Exerceu a tenência de Baião e Penaguião. Casou-se com Teresa Pires I de Bragança, e, em virtude do laço matrimonial, acedeu à tenência de Bragança. Criou o filho bastardo de Dom Sancho I, Rodrigo Sanches. Casou-se em segundas núpcias com Urraca Afonso de Ribadouro. Sobre esta Família interessa a dissertação de mestrado de Miguel Hugo Marques Rodrigues, Família e património fundiário: o exemplo dos de Baião nos séculos XII e XIII, Porto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2018.
[8] Egas Monis, o Aio, é sem sombra de dúvida o mais célebre membro desta linhagem. Egas Monis IV de Ribadouro nasce em 1080 e morre em 1146. Foi um rico-homem portucalense, trineto do fundador da linhagem dos Ribadouro, Monio Gasco. Povoou a região da actual Mangualde por ordem de Dom Henrique. Venceu os mouros em Lamego e tornou-se magnate na corte condal. Após a morte de Dom Henrique foi nomeado por Dona Teresa príncipe colimbriense, tendo, então, sob seu comando os tenentes de Coimbra, Viseu, Seia, Lamego e Feira. Foi preceptor de Dom Afonso Henriques. Protegia o Mosteiro de Paço de Sousa onde foi sepultado. Sobre o Aio vide A. de Almeida Fernandes, Dom Egas Moniz de Ribadouro – O Honrado e o Bem-Aventurado, Lisboa, 1946.
[9] Cfr. PLINIO CORRÊA de OLIVEIRA, Nobreza e Elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII à Nobreza e ao Patriciado Romano, 1993, Porto, pp. 257-258. A alocução é de 5 de Janeiro.
[10] O problema da extinção de algumas linhagens muitas vezes é vinculado a factores biológicos como a esterilidade. Mas não deve ser descartada uma explicação menos naturalista, pois factores espirituais podem também contribuir para o estiolamento e mesmo desaparecimento de linhagens. A decadência moral podia, outrora, em caso extremo, chegar ao crime, atingindo a Família na sua vida social, por exemplo, com a morte civil do criminoso, uma importante capitis diminutio. Nas Ordenações do Reino, o liber terribilis previa a extensão de diversas penas à Família. Lembre-se ainda o instituto da degradação de membros da nobreza.
[11] Esta edificação, evidentemente associada às diversas Famílias não nobres, merece estudo acurado. A função de padroeiros de Igrejas e Mosteiros apresenta um excelente campo de investigação, a partir de critérios católicos, para a percepção dos bons ofícios dos poderes espirituais e temporais nesta empresa magna. Sobre o tema ver, com boas pistas, a dissertação de mestrado de Cristina João Balseiro Merendeiro, defendida no ano de 2021 na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, intitulada: Família, Poder e Devoção: o caso dos de Ribadouro nos séculos XI a XIII. E, ainda, o trabalho muito documentado e com vasta bibliografia de José Augusto Sottomayor-Pizarro, Aristocracia e Mosteiros na Rota do Românico – A senhorialização dos vales do Sousa, Tâmega e Douro (séculos XI-XIII), Lousada,2014.