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A doutrina dos Novíssimos, as festas dos Fiéis Defuntos e de Todos os Santos

29 de Outubro de 2026

Corrispondenza Romana

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A doutrina dos Novíssimos, as festas dos Fiéis Defuntos e de Todos os Santos

Cristina Siccardi

 

Preparamo-nos para viver dois dias muito importantes para a Igreja Católica: a festa de Todos os Santos e o dia dos Fiéis Defuntos. Assim como há uma Comunhão dos santos, canonizados pela Igreja, há também uma Comunhão das almas santas no Céu, que participam da Glória de Deus ou que participarão, pois alguns deles estão no Purgatório, mas já são abençoados porque já estão destinados ao Paraíso, depois da purificação que o julgamento de Deus permite por determinado tempo, que pode ser abreviado pelas orações e pelas Santas Missas de sufrágio, que se enquadram naquele plano desejado por Nosso Senhor, ou seja, as almas da terra, através das suas práticas religiosas, podem interceder a favor das almas do Purgatório, e vice-versa, as almas tanto do Purgatório como do Paraíso podem interceder a favor dos que estão na terra.

 

No final da vida passamos por etapas: a morte, o julgamento particular (Cristo julga a alma), o Inferno ou o Paraíso. Estes são os quatro Novíssimos, que na escatologia católica são as «últimas coisas», em latim novissima. No Antigo Testamento, surge no Eclesiástico a expressão latina novissima: «In omnibus operibus tuis memorare novissima tua, et in æternum non peccabis» («Em todas as tuas obras, lembra-te do teu fim último e nunca pecarás»).

 

Tal como acontece com muitos outros aspectos da doutrina católica, a grande maioria dos pastores já não fala dos Novíssimos. O Papa Paulo VI, ao abordar a escatologia a 8 de Setembro de 1971, observou que esta «domina toda a concepção da vida cristã, da história, do tempo e do destino humano para além da morte»; contudo, notou, «poucos falam dos Novíssimos e, quando o fazem, dizem muito pouco». Joseph Ratzinger, por sua vez, tratou o tema — começando logo no seu primeiro ciclo de aulas em Freiburg, em 1957 — e, em 1977, publicou «Escatologia: Morte e Vida Eterna», obra que suscitou um debate aceso, particularmente na Alemanha. O próprio Ratzinger considerava este texto a sua obra «mais elaborada e precisa».

 

Os Novíssimos foram, na prática, descartados por uma cultura «católico-liberal», relativista e secularizada, não encontrando mais lugar na pregação. Parece quase uma ironia cruel: a fé cristã — fundamentada na Encarnação de Cristo, na Sua Morte e Ressurreição, e na Sua própria pregação (que se centrava precisamente nas consequências eternas do pecado mortal) — já não é objecto de interesse religioso. Na verdade, toda a vida de fé está orientada para a salvação para além do nosso exílio terreno; contudo, o cristianismo contemporâneo tende a concentrar-se, pelo contrário, no presente, no imanente, no «aqui e agora».

 

Até à revolução teológica do século XX, ninguém considerava questionar ou contestar os conceitos de morte e de juízo para cada alma; ninguém especulava de forma fantasiosa sobre as realidades do Inferno ou do Céu, pois tudo estava fundamentado na pregação de Jesus, no Novo Testamento, nos Padres da Igreja e na Tradição do Magistério da Igreja. Em certo momento, contudo, a condenação de erros teológicos cessou, e passaram a ser ouvidas e acolhidas as interpretações subjectivas e evocativas de diversos teólogos — os quais, seguindo filosofias secularistas surgidas a partir do século XVIII e influenciados por ideias protestantes, arrogaram a si mesmos o direito presunçoso de apresentar as suas próprias opiniões. Isto levou à dissolução dos pilares fundamentais referentes à vida depois da morte. Consequentemente, a doutrina sólida dos Novíssimos transformou-se numa teoria teológica passível de ser manipulada de acordo com os gostos e caprichos de cada um; aliás, «sob a influência, sobretudo, do pensamento marxista, a esperança tornou-se política» (G. M. Vian, «Morte, Juízo, Inferno e Céu: as quatro (últimas) coisas esquecidas», in Domani, 26 de Novembro de 2023).

 

A pregação em igrejas cada vez mais vazias tornou-se inteiramente politizada: muitos párocos — cujo número diminui constantemente — possuem, não raras vezes, formação em psicologia ou sociologia e transformaram-se, na prática, em políticos com um público cada vez mais reduzido. A pregação mudou, mas isso não significa que os Novíssimos tenham desaparecido. Considere-se um exemplo concreto: tal como o aborto continua a ser um homicídio — ainda que a lei de um Estado o declare legítimo — da mesma forma, continuam a existir as quatro realidades conhecidas como Novíssimos.

 

O ensinamento dos Padres da Igreja a respeito das realidades últimas da existência humana desenvolveu-se por meio de uma reflexão cuidadosa — fundamentada na tradição oral dos Apóstolos e nas Sagradas Escrituras — processo impulsionado pelas exigências da pregação e pelo combate firme e persistente contra as heresias. Tais desafios exigiram respostas sábias e definitivas, as quais, por sua vez, contribuíram para a construção da teologia escatológica católica.

 

Santo Agostinho de Hipona apresentou uma das abordagens mais influentes sobre as «últimas realidades» (Novissima) no Ocidente cristão, desenvolvendo o seu pensamento, sobretudo, na obra «A Cidade de Deus» (De civitate Dei) e nos seus sermões. Sustenta que o ser humano foi criado para o infinito e para a beatitude, afirmando que «o próprio Deus, depois desta vida, é a nossa morada». Nesta perspectiva, a presença ou a ausência de Deus determina se alguém alcança a salvação ou a condenação. Enquanto o Paraíso se caracteriza pela harmonia perfeita da beatitude e da paz, o Inferno é marcado pelo «choro e ranger de dentes» (que denota dor e ira) — descrição apresentada por Jesus e registada pelos evangelistas Mateus e Lucas.

 

Este Pai e Doutor da Igreja faz uma distinção entre o juízo particular, que ocorre logo após a morte de um indivíduo, e o Juízo Universal, no fim dos tempos (tema tratado extensamente em De civitate Dei contra Paganos, Livro XX). Jesus Cristo será o Juiz e o Seu veredicto separará, de modo definitivo, os salvos dos condenados — tal como um pastor separa as ovelhas dos cabritos (Mateus 25,32-33). Santo Agostinho rejeita firmemente as teorias de Orígenes — que defendia a apokatastasis, ou seja, a salvação universal de todas as criaturas, incluindo o próprio diabo — bem como as concepções dos neoplatónicos, que viam os castigos como algo inerentemente purificador para todos. Para Santo Agostinho, aqueles que morrem num estado de rebelião aberta e impenitente contra Deus excluem-se, eternamente, da Sua graça. Além disso, sustenta que, para as almas dos fiéis que morrem com faltas ligeiras, existe uma purificação temporária após a morte (o Purgatório), através do fogo da tribulação. A este respeito, sublinha a importância da intercessão — concretamente o Santo Sacrifício da Missa, a caridade da Igreja e as orações oferecidas em favor dos defuntos.

 

Assim, regressamos à Comunhão das almas — na Terra, no Purgatório e no Céu — que podem interceder umas pelas outras, invocando o amor de Nosso Senhor Jesus Cristo, o qual concede bênçãos, graças e milagres a todos aqueles que se amam mutuamente n’Ele.

 

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Fonte: Corrispondenza Romana, 28 de Outubro de 2026

Tradução: Cristãos Atrevimentos

 

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