Onda de violência e devastação assola a Europa neste mês de Outubro
Na França, as manifestações envolveram dezenas de milhares de pessoas em Paris, Marselha, Lyon, Bordéus e Limoges. Aqui, o incêndio na Câmara Municipal e o desabamento da sua torre evocaram as imagens da flecha de Notre-Dame devorada pelas chamas em 2019. Desta vez, porém, o fogo foi ateado por grupos de manifestantes mascarados: um ataque deliberado contra um edifício que faz parte da história e da identidade do município.
O presidente da Câmara de Limoges, Guillaum Guérin, afirmou que o Estado abandonou a sua cidade, tal como aconteceu em Paris, onde o presidente da Câmara, Emmanuel Grégoire, afirmou que vastas zonas da capital foram devastadas impunemente. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, apresentou a sua demissão, que o presidente Emmanuel Macron rejeitou, embora tenha reconhecido que «em algumas cidades perdemos o controlo». Trata-se de uma admissão politicamente pesada: um Estado que não consegue proteger as suas próprias sedes institucionais expõe publicamente a sua fraqueza. Posteriormente, a 19 de Outubro, foi imposto o recolher obrigatório em Paris e noutras cidades francesas. Já a 8 de Outubro, Jean-Luc Mélenchon, líder de «La France insoumise», tinha escrito que «a Bastilha foi reconquistada», atribuindo a uma manifestação «estudantil» o significado simbólico de uma conquista revolucionária. O protesto tornou-se, não apenas na França, uma oportunidade para ocupar o cenário político com vista às eleições de 2027. Também na Itália – em Milão, Turim e Bolonha – as ruas tornaram-se palco de assaltos, saques e confrontos com a polícia. Mas os sectores da esquerda que procuram transformar a mobilização permanente em instrumento de pressão sobre os governos correm o risco de serem ultrapassados pela própria rua que pretendem representar. Quando a anarquia, o antissionismo e a propaganda islâmica se fundem num protesto, o controlo político do movimento torna-se cada vez mais precário. Quem pensa em aproveitar-se da desordem para tomar o poder pode descobrir que a desordem possui uma dinâmica própria — uma dinâmica que escapa aos cálculos dos seus próprios criadores.
Contribua doando qualquer valor Quero Doar
Os protagonistas da violência urbana na Europa, hoje, são maioritariamente menores de idade — chamados em Itália de «maranza», um termo utilizado, muitas vezes de forma bastante ampla, para descrever as subculturas juvenis caracterizadas pelo culto da dominação, pela exibição ostensiva de força e pelo desprezo por todas as regras. Este novo grupo sociocultural é composto, em grande parte, por filhos de imigrantes de segunda ou terceira geração; estão desenraizados das tradições e da cultura dos seus antepassados, mas, ao mesmo tempo, não se integraram na sociedade em que se encontram — uma sociedade pela qual, muitas vezes, nutrem um ódio visceral. O niilismo que define esta geração — rebelde desde a escola primária — manifesta-se como uma rejeição a todas as formas de autoridade: familiar, educativa, religiosa e civil. Antes mesmo de uma montra ser partida, já existe a convicção de que nada merece respeito; antes de um polícia ser atacado, prevalece a crença de que qualquer exercício de autoridade é um acto de opressão. Durante anos, a intelectualidade de esquerda — que exerceu grande influência na Europa — ensinou as pessoas a verem com desconfiança quaisquer restrições ou dependências, confundindo regras com repressão, e disciplina com autoritarismo. Ora, causa surpresa o facto de alguns jovens encararem a força como a única linguagem eficaz.
A área de influência dos protestos juvenis não é apenas política, mas expressa uma agitação social mais ampla e, sobretudo, um profundo vazio de valores, que se expressa numa fúria devastadora. No entanto, ninguém acredita na espontaneidade do protesto. Os manifestantes são convocados nas redes sociais com slogans que, em Espanha, França, Bélgica e Itália, têm as mesmas motivações: custos de vida elevados, rendas, reivindicações juvenis e antagonismo político. Na Itália, a estratégia de um recém-nascido «Movimento 17 de Outubro» passa por uma mobilização permanente com compromissos fixos todos os sábados às 15 horas em várias cidades.
Os jovens, quase todos com os rostos tapados, posicionam-se em pontos estratégicos, escolhendo alvos específicos contra os quais desencadearão a sua violência. O protesto social fornece a base; os grupos militantes seleccionam alvos; a comunicação digital multiplica a mobilização e a emulação.
Os aparelhos de segurança franceses e ocidentais relatam que os protestos e a agitação estão a ser alimentados ou acelerados por campanhas de desinformação e influenciadores online financiados ou dirigidos directamente do exterior, como parte da chamada guerra híbrida para desestabilizar o tecido social e económico europeu.
Num artigo para o Libero de 20 de Outubro, Andrea Morigi documenta o interesse de Moscovo e Teerão em atiçar as chamas da agitação que actualmente se espalha pela Europa. O ideólogo russo Aleksander Dugin comentou nas redes sociais: «Quanto mais caos, melhor». E acrescentou: «Estes europeus querem lutar contra a Rússia — como esperam que isso aconteça, se não conseguem sequer manter um nível básico de ordem nas suas próprias cidades?». O primeiro-ministro albanês, Edi Rama, sugeriu ainda que uma mão estrangeira pode estar a orquestrar os surtos de guerrilha urbana que eclodiram por toda a Europa — incluindo em Tirana — nos últimos dias. Isto é ainda corroborado pelos milhares de perfis falsos e ataques cibernéticos — atribuídos ao Irão pela inteligência albanesa — que foram lançados contra o seu país.
A analista Marta Ottaviani escreveu no Quotidiano Nazionale, no dia 19 de Outubro: «Os protestos na Europa oferecem a Moscovo uma oportunidade para alimentar o caos, sem necessariamente o instigar. Os serviços de informação russos podem explorar tensões preexistentes através de provocações e campanhas de desinformação, amplificando tanto a violência dos manifestantes como as acções da polícia. O objectivo é acirrar as divisões sociais, deslegitimar os governos e enfraquecer a confiança nas instituições democráticas. Esta é uma estratégia que o Kremlin já utilizou anteriormente: a sua guerra híbrida caracteriza-se, acima de tudo, pela sua intangibilidade — tanto que muitos estudiosos a denominam «guerra na zona cinzenta». Não é por acaso que os protestos de 20 de Outubro foram acompanhados de perto pelo Rybar, um influente canal no Telegram fundado por Mikhail Zvinchuk, ex-funcionário do Ministério da Defesa da Rússia. O canal publicou um mapa actualizado dos protestos em França, Itália e outros países europeus, acompanhado de uma análise que prevê uma série de crises nacionais, em vez de uma revolta generalizada. Por outro lado, o canal da oposição bielorrussa NEXTA chamou a atenção para o apoio que Moscovo prestou no passado ao movimento francês dos Coletes Amarelos, sugerindo o risco de que o Kremlin possa, mais uma vez, explorar estes protestos para os seus próprios fins em diversos países europeus.»
A guerra híbrida encontra o seu terreno favorável em sociedades cada vez mais fragmentadas e em instituições desorientadas e divididas. O que está a acontecer mostra a rapidez com que um protesto se pode transformar numa crise de autoridade e de ordem pública. O espectro da «ingovernabilidade urbana» paira mais uma vez sobre o continente, à medida que a Europa enfrenta sérias ameaças às suas fronteiras. Quem desiste de governar as suas cidades acaba por entregá-las a quem sabe organizar o medo.
Entretanto, mísseis e bombas continuam a cair sobre a Ucrânia, que se tornou um posto avançado daquela Europa que o presidente norte-americano, Donald Trump, parece querer entregar aos seus inimigos.
Contribua doando qualquer valor Quero Doar
Fonte: Corrispondenza Romana, 21 de Outubro de 2026
Tradução: Cristãos Atrevimentos