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A águia e a pomba: Teresa de Ávila e Teresa de Lisieux

28 de Outubro de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

A águia e a pomba: Teresa de Ávila e Teresa de Lisieux

O mês de Outubro reúne, no calendário da Igreja, duas grandes santas carmelitas: Teresa de Jesus e Teresa do Menino Jesus. A primeira — a santa de Ávila — é conhecida por Teresa, a Grande; a segunda — a santa de Lisieux — é carinhosamente chamada de pequena Teresa. A águia e a pomba servem-lhes de símbolos apropriados: a primeira representando um olhar elevado e a simplicidade de coração; a segunda, as alturas sublimes da contemplação e a entrega confiante da alma.

 

A Águia e a Pomba é também o título de um livro da autora inglesa Vita Sackville-West, publicado em 1943, dedicado a estas duas santas carmelitas. De um lado, a reformadora espanhola, cujos empreendimentos deixaram marca indelével na história da Igreja; do outro, a jovem freira francesa que faleceu quase no anonimato, após nove anos vividos no claustro de Lisieux.

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Vita Sackville-West foi uma escritora de inegável talento literário e psicológico; contudo, levava uma vida pouco disciplinada e, infelizmente, não conseguiu penetrar no segredo sobrenatural dessas duas almas — especialmente no de Santa Teresa do Menino Jesus, cuja fecundidade espiritual ela não logrou compreender. Embora separadas pelas épocas em que viveram, pelas suas nacionalidades, temperamentos distintos e experiências espirituais singulares, estas duas almas estão mais próximas do que se poderia imaginar.

 

Teresa de Ahumada nasceu em Ávila, Espanha, em 1515. Ao ingressar no Mosteiro da Encarnação, enfrentou uma longa luta interior. Embora compreendesse a grandeza da sua vocação, deparou-se com a dificuldade de vencer os apegos que dividem o coração humano. Em 1554, a contemplação de uma imagem de Cristo ferido marcou um ponto de viragem decisivo na sua vida. Perante o sofrimento do Salvador, ela tomou consciência da ingratidão da sua própria resposta e entregou-se a Ele com determinação renovada.

 

Em 1562, ela fundou o mosteiro de São José em Ávila, o que marcou o início da reforma carmelita. Seguiram-se viagens, novos alicerces, oposições e dificuldades — tudo suportado apesar da sua saúde frágil, mas com uma vontade inabalável. Ao seu lado, São João da Cruz ajudou a estender a reforma ao ramo masculino da ordem. Teresa possuía uma capacidade notável para lidar com as necessidades materiais, discernir o carácter das pessoas e resolver problemas práticos, tudo isto enquanto a sua alma permanecia constantemente imersa na presença de Deus. Numa das suas obras, O Castelo Interior, Teresa guia a alma através das várias «moradas» da vida espiritual, conduzindo-a para a união plena com Deus. Entrar neste castelo, contudo, exige recolhimento, humildade e oração. É preciso olhar para dentro de si para reconhecer a presença do Senhor. Quanto mais se avança, mais se percebe que todo o progresso provém da graça e exige uma resposta fiel. Assim, as experiências místicas mais profundas servem apenas para aprofundar o desejo de servir.

 

Térèse Martin nasceu em Alençon, França, em 1873, e ingressou no Carmelo de Lisieux aos quinze anos. A sua vida religiosa desenrolou-se num âmbito aparentemente restrito: tarefas comuns, pequenos mal-entendidos e sofrimentos ocultos. Por fim, a tuberculose levou-a à morte a 30 de Setembro de 1897, com vinte e quatro anos. Contudo, dessa vida breve, irradiou-se uma luz destinada a alcançar o mundo inteiro. A «pequena via» de Santa Teresinha é uma escola de heroísmo quotidiano. Consiste em reconhecer a própria fraqueza e entregar-se à misericórdia divina, oferecendo a Deus, com amor, cada acto da vida diária.

 

Teresinha também vivenciou momentos de escuridão interior. Nos seus últimos meses, o sofrimento físico foi agravado por uma dolorosa provação da fé. O Céu parecia retirar-se da sua vista; contudo, ela continuou a acreditar e a amar. Aqui, o acto de abandono atinge a sua maturidade: entregar-se a Deus quando todo o consolo sensível desaparece, permanecendo, ao mesmo tempo, fiel à Sua palavra.

 

Em ambas as mulheres arde um desejo apostólico que abraça o mundo inteiro. A grande Teresa fundou mosteiros para que a Igreja pudesse ser servida por almas santas; Teresinha ofereceu-se para apoiar os sacerdotes e obter a conversão dos pecadores. A história recebe impulsos decisivos não só dos grandes empreendimentos, mas também da oração e do sacrifício oculto. A águia e a pomba voam em direção ao mesmo Céu.

 

Duas declarações feitas perto do fim da vida destas duas grandes figuras lançam luz sobre a sua profunda unidade. No dia 30 de Setembro de 1897 — dia da sua morte — Teresinha do Menino Jesus declarou: «Sim, parece-me que nunca procurei outra coisa senão a verdade». Aqui, o seu «pequeno caminho» revela toda a sua seriedade. Nas vésperas de um século que propagaria um relativismo de pensamento e de opinião, Santa Teresinha proclamou a existência de uma verdade absoluta, à qual se devem submeter os próprios desejos, sentimentos e juízos. Para o cristão, esta verdade identifica-se com uma Pessoa — Jesus Cristo — que disse de Si mesmo: «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo 14,6). Procurar sinceramente a verdade envolve, portanto, toda a existência; exige que os pensamentos, sentimentos e acções de cada um lhe sejam conformados, com profunda humildade. Esta verdade — que é Jesus Cristo — vive no seio da Igreja Católica, o Corpo Místico do seu divino fundador.

 

Em Alba de Tormes, onde faleceu a 4 de Outubro de 1582, Teresa de Ávila manifestou esta certeza: «Dou-Vos graças, Senhor, por morrer como filha da Igreja». Paulo VI citou estas palavras na sua carta apostólica Multiformis Sapientia Dei, através da qual a proclamou Doutora da Igreja, a 27 de Setembro de 1970. A grande reformadora reconhecia a sua condição de filha da Igreja como um dom supremo. Da Igreja, ela recebera a fé, os sacramentos e o discernimento necessário para orientar até as suas mais profundas experiências místicas. Num século dilacerado por heresias e cismas, Teresa sabia que só no seio da Igreja pode uma pessoa alcançar o seu destino sobrenatural último; agradeceu a Deus por a ter mantido firme na profissão da fé católica e em comunhão com a Igreja Romana. A sua reforma nasceu desse sentido de pertença e procurou tornar essa pertença ainda mais fervorosa.

 

Para um católico, não há maior bem terreno do que pertencer à Igreja visível, pois ela une-nos a Jesus Cristo — a Verdade suprema — e proporciona-nos os meios para a salvação eterna. Assim, a procura da verdade e a fidelidade à Igreja estão intimamente ligadas. Cristo confiou a Revelação à Igreja para que fosse guardada e transmitida, inalterada, ao longo dos séculos. Ser filho da Igreja significa acolher essa herança com gratidão, professá-la com firmeza e vivê-la com caridade, no meio de todas as adversidades.

 

Nos lábios destas duas mulheres, no momento da sua morte, a verdade e a pertença transformam-se em gratidão e confiança. Teresa, a Grande, e a «pequena» Teresinha — a águia e a pomba — ensinam-nos que viver é preparar-se para a morte e que, preparar-se para a morte, é viver na verdade de Cristo, como filhos fiéis da Sua Igreja, que nunca morre.

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Fonte: Corrispondenza Romana, 21 de Outubro de 2026

Tradução: Cristãos Atrevimentos

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