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A viagem de Leão XIV a França: «Deus Vult»? Ou «Liberdade, Igualdade, Fraternidade»?

23 de Outubro de 2026

Luiz Sérgio Solimeo

Luiz Sérgio Solimeo

A viagem de Leão XIV a França: «Deus Vult»? Ou «Liberdade, Igualdade, Fraternidade»?

            Os povos e as nações – assim como os indivíduos – recebem de Deus uma missão de acordo com os desígnios da Sua Providência. Em relação à França, o Papa Gregório IX, em carta de 21 de Outubro de 1239 ao rei São Luís, escreveu estas belas palavras: «Deus, a quem obedecem as legiões celestiais, tendo estabelecido diferentes reinos aqui na Terra, de acordo com a diversidade de línguas e climas, confiou a muitos governos missões especiais para o cumprimento dos Seus desígnios. E, tal como outrora escolheu a tribo de Judá acima dos outros filhos de Jacob e lhe concedeu bênçãos especiais, assim também escolheu a França acima de todas as outras nações da Terra para protecção da fé católica e a defesa da liberdade da Igreja.»[1]

            No entanto, tal como os indivíduos, as nações e os povos também podem abandonar o chamamento de Deus e voltar-se contra Ele. Foi o que, infelizmente, aconteceu com a França e com os outros países da antiga Cristandade e praticamente com o mundo inteiro, ao adoptarem uma filosofia oficialmente secular e anticatólica. [2]

«Deus o quer» ou «Liberdade, Igualdade, Fraternidade»?

            Pode dizer-se que a França está dividida em duas mentalidades, duas filosofias, talvez duas religiões, que se expressam em duas proclamações antagónicas.

            No Concílio de Clermont de 1095, quando o Papa Urbano II pregou a Primeira Cruzada para libertar o Santo Sepulcro e defender o cristianismo oriental perseguido pelos muçulmanos, os presentes gritaram, num gesto espontâneo e entusiástico, «Deus Vult!», «Deus o quer!». «É a vontade de Deus!». [3]

            Foi esta submissão à vontade de Deus, colocando-a acima da própria vontade, que fez com que os grandes heróis e santos franceses lutassem em defesa da Fé, da verdade e da pátria.

            Em oposição, a trilogia que ficou famosa com a Revolução Francesa de 1789 – «Liberdade, Igualdade, Fraternidade» – tornou-se o lema da República secular francesa, expressando uma mentalidade diferente.

            Considerando cada palavra desta trilogia isoladamente e dando-lhe o seu significado na filosofia consolidada e na teologia tradicional, não há nada de censurável. Mas, unidas no lema que foi forjado e usado como símbolo de uma revolução igualitária e ateia, o significado muda. A trilogia deve ser analisada no sentido histórico em que foi concebida e que ainda mantém hoje.

https://laratranslate.com/Usado pela primeira vez por Robespierre

            De acordo com o site da Presidência da República Francesa, «as noções de liberdade, igualdade e fraternidade não foram inventadas pela Revolução. As ligações mais estreitas entre os conceitos de liberdade e igualdade foram frequentes durante o Iluminismo, particularmente com Rousseau e Locke. No entanto, só durante a Revolução Francesa foram reunidos como lema tripartido.»[4]

            Foi precisamente Robespierre, membro do célebre Comité de Salvação Pública da Revolução Francesa – responsável pela morte de milhares de pessoas – que, em discurso proferido a 5 de Dezembro de 1790, usou pela primeira vez o lema «Liberdade, Igualdade, Fraternidade».

            Falando sobre a organização das Guardas Nacionais, Robespierre propôs: «Levarão no peito estas palavras gravadas: O POVO FRANCÊS e por baixo: LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE. As mesmas palavras serão inscritas nas suas bandeiras, que ostentarão as três cores da nação.»[5]

https://laratranslate.com/Ideias que preparam o comunismo

            Portanto, este lema deve ser analisado quer como uma síntese do racionalismo iluminista quanto símbolo da Revolução Francesa. Numerosos papas fizeram-no, começando por Pio VI, em 1791, numa carta ao arcebispo de Paris. Foi seguido nisso por vários papas subsequentes e, entre eles, pelo Papa Pio IX, que denunciou o perigo, dizendo: «E, quanto a esses sistemas e doutrinas corruptas, já é bem sabido por todos que, ao usarem mal os termos liberdade e igualdade, procuram incutir nas massas os princípios perniciosos do socialismo e do comunismo.» [6]

            Na verdade, o lema da Revolução Francesa atrai socialistas e comunistas, como se pode ver numa publicação do Partido Comunista Português: «O clima revolucionário que ia crescendo em todo o país... alimentado pela acção esclarecedora de grandes pensadores franceses do Iluminismo, como Voltaire (1684–1778), Montesquieu (1689–1755), Rousseau (1712–1778), Diderot (1713–1784), d'Alembert (1717–1782), Holbach (1723–1789), Helvetius (1715–1771) e outros... As suas ideias foram condensadas no slogan abrangente: “Liberdade – Igualdade – Fraternidade”».[7]

https://laratranslate.com/A visita de Leão XIV a França

            No que diz respeito a França, onde o Papa Leão XIV foi tão entusiasticamente recebido pelo povo, [8] encontramos, simultânea e paradoxalmente, tanto um eco do Deus vult (nos fiéis católicos) como a persistência da trilogia «Liberdade, Igualdade, Fraternidade» (especialmente nas autoridades).

            É surpreendente que Leão XIV, embora tenha falado das «profundas raízes cristãs» da França, também tenha elogiado o humanismo renascentista, a filosofia do Iluminismo e o lema «Liberté, Egalité, Fraternité». No seu discurso às autoridades reunidas no Palácio do Eliseu, o Papa disse:

            «A França é uma terra com profundas raízes cristãs. Desde o tempo de Santo Ireneu e do baptismo de Clóvis, a alma da nação tem extraído do cristianismo um rico ímpeto espiritual, cultural, intelectual, artístico e missionário que continua a fazer-se sentir no nosso mundo de hoje. Foi assim que o humanismo floresceu na França do século XVI, como meio de unir a herança da Grécia e de Roma clássicas à fé cristã. Com os grandes pensadores do Renascimento e, mais tarde, do Grande Século, sucedidos pelos do Iluminismo, a França foi responsável por avanços significativos no nosso mundo, incluindo o reconhecimento dos direitos humanos fundamentados na natureza da pessoa humana, particularmente a liberdade religiosa. Esta atenção constante à dignidade inerente a cada pessoa reflecte-se no vosso lema nacional. Liberdade, igualdade e fraternidade não são apenas palavras inscritas nas fachadas dos vossos edifícios públicos; referem-se a imperativos éticos universais que também encontram na mensagem do Evangelho uma fonte inesgotável de inspiração e realização.» [9]

            Elogiar o humanismo do Renascimento – que abandonou a noção do sobrenatural e exaltou o naturalismo pagão como progresso em relação à filosofia medieval – não é compreensível num papa. Sobre o Humanismo, diz a Enciclopédia Católica que «o conceito transcendental e não mundano da vida, que até então tinha sido dominante, entrou agora em conflito com uma visão mundana, humana e naturalista, centrada na natureza e no homem.» [10]

            É ainda mais difícil de entender o elogio do papa ao Iluminismo racionalista francês, que conduziu à Revolução Francesa. A Stanford Encyclopedia of Philosophy apresenta o Iluminismo francês da seguinte forma:

            «O cerne do Iluminismo do século XVIII é a actividade vagamente organizada de proeminentes pensadores franceses das décadas de meados do século XVIII, os chamados «philosophes» (por exemplo, Voltaire, d'Alembert, Diderot, Montesquieu)...

            «O Iluminismo é frequentemente associado às suas revoluções e ideais políticos, especialmente à Revolução Francesa de 1789. A dinâmica criada e expressa pelo fermento intelectual dos pensadores do Iluminismo contribuiu para a crescente [RD1] onda de agitação social na França no século XVIII. A agitação social culmina na violenta convulsão política que varre o Antigo Regime, tradicional e hierarquicamente estruturado (a monarquia, os privilégios da nobreza, o poder político da Igreja Católica).» [11]

            Por fim, afirmar que as palavras do lema Liberté, Egalité, Fraternité «se referem a imperativos éticos universais que também encontram na mensagem do Evangelho uma fonte inesgotável de inspiração e realização» é deixar de considerar como o lema foi historicamente forjado e como as palavras que o compõem foram entendidas durante a Revolução Francesa. É o símbolo da «laïcité» (laicidade) da República Francesa, que perseguiu a Igreja, expulsou ordens e congregações religiosas e confiscou os bens da Igreja tantas vezes nos últimos séculos. [12]

            Conforme dito anteriormente, cada palavra da trilogia, entendida de acordo com a filosofia autêntica e a teologia tradicional, pode ter um significado correcto. Mas, tal como foi concebida durante a Revolução Francesa e ainda é entendida hoje, esta trilogia é anticatólica.

https://laratranslate.com/Uma Pastoral de Conversão

            O elogio de Leão XIV ao Iluminismo e à trilogia revolucionária não era apropriado do ponto de vista pastoral, ou seja, da aplicação prática dos princípios e normas da Igreja Católica para conduzir as almas à verdade e à santidade, tendo em conta que a salvação das almas é a lei suprema da Igreja. [13]

            Como referido, havia ecos do «Deus vult», não de «Liberdade, Igualdade, Fraternidade» no entusiasmo dos jovens que foram ver o pontífice romano.

A França e o mundo serão convertidos

            Antecipando a promessa de Nossa Senhora em Fátima – «Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará» – o Papa São Pio X proferiu palavras muito consoladoras sobre a França na sua alocução de 29 de Novembro de 1911. Podemos esperar que se apliquem a todo o Ocidente e também ao mundo:

            «Dia virá, e esperamos que não esteja muito distante, em que a França, como Saulo no caminho de Damasco, será envolta por uma luz celeste e ouvirá uma voz que lhe dirá novamente: “Minha filha, por que me persegues?” E à resposta: “Quem és tu, Senhor?”, a voz replicará: “Sou Jesus, a Quem persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão, porque em tua obstinação te arruínas a ti mesma”. E ela, trémula e atónita, dirá: “Senhor, que queres que eu faça?” E Ele: “Levanta-te, lava as manchas que te desfiguraram, desperta no teu seio os sentimentos adormecidos e o pacto da nossa aliança, e vai, filha primogénita da Igreja, nação predestinada, vaso de eleição, vai levar, como no passado, o Meu Nome diante de todos os povos e de todos os reis da terra”.» [14]

 

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Notas:

[1] Gregório IX, «Carta a Luís IX de França» (21 de Outubro de 1239), citada por São Pio X em «Parole del Santo Padre Pio X—Pubblicazione dei decreti sulle virtù eroiche di: Giovanna d’Arco, Givoanni Eudes, Francesco de Capillas, Giovanni Teofano Vénard e compagni» (13 de Dezembro de 1908), https://www.vatican.va/content/pius-x/it/speeches/documents/hf_p-x_spe_19081213_decreto-beatificazione.html. [A tradução das fontes estrangeiras é do Autor. Nas citações, os seus destaques estão em itálico enquanto que no original estão a cheio.]

[2] Ver Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução (Editora Caminhos Romanos, Porto, 2020, Parte I, Caps. 2 e 3.

[3] Ver René Grousset, The Epic of the Crusades, trans. Noel Lindsay (New York: Orion Press, 1970), 4.

[4] «Liberty, Equality, Fraternity,» Elysee.fr, consultado a 2-10-2026, https://www.elysee.fr/en/french-presidency/liberty-equality-fraternity.

[5] «5 Décembre 1790 “Liberté, Egalité, Fraternité” Robespierre (Discours sur l’organisation des gardes nationales), Gauchemip.org, 4-10-2018, https://www.gauchemip.org/spip.php?article4407. (CAPS in the original.)

[6] Pio IX, Encíclica Nostis et nobiscum (8 de Dezembro de 1849), https://www.vatican.va/content/pius-ix/it/documents/enciclica-nostis-et-nobiscum-8-dicembre-1849.html.

[7] Partido Comunista Português – Organização Regional de Lisboa, «Liberdade, Igualdade, Fraternidade — A grande Revolução Francesa de 1789 e suas repercussões». ABC do Marxismo-Leninismo A, nº 4 (1976) (Lisboa: Editorial Avante!), https://www.marxists.org/portugues/tematica/livros/abc-marxismo/a04.htm.

[8] Ver Axel Chouvel, «“Que Dieu bénisse la France”: Ces 4 jours où Léon XIV a enthousiasmé les Français,» (“Que Deus abençoe a França”: Os 4 dias em que Leão XIV entusiasmou os franceses), Le Figaro, 28-9-2026, https://video.lefigaro.fr/figaro/que-dieu-benisse-la-france-ces-4-jours-ou-leon-xiv-a-enthousiasme-les-francais-20260928.

[9] Leão XIV, «Alocução do Papa Leão XIV — Encontro com as Autoridades, a Sociedade Civil e o Corpo Diplomático» (25-9-2026):  https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/speeches/2026/september/documents/20260925-francia-autorita.html

[10] Klemens Löffler, «Humanism» The Catholic Encyclopedia (New York: Robert Appleton Company, 1910), 7:538, https://archive.org/details/catholicencyclop07herbuoft/page/538/mode/1up .

[11] William Bristow, «Enlightenment» in The Stanford Encyclopedia of Philosophy, ed. Edward N. Zalta and Uri Nodelman, (Fall 2023), https://plato.stanford.edu/archives/fall2023/entries/enlightenment.

[12] Ver Adrien Dansette, «Under the Third Republic», vol. 2 of Religious History of Modern France, trans. John Dingle (New York: Herder and Herder, 1961).

[13] Assim estabelece o Cânone 1752 do Código de Direito Canónico de 1983: «Nas causas de transferência apliquem-se as prescrições do cân. 1747, observada a equidade canónica e tendo sempre diante dos olhos a salvação das almas, que deve ser sempre a lei suprema na Igreja.» Consultado em 11-10-2026. https://www.vatican.va/archive/cod-iuris-canonici/eng/documents/cic_lib7-cann1732-1752_en.html.

[14] Pio X, «Allocução — Habita occasione impositionis ab freti novis cardinalibus (29 de Novembro de 1911), in Acta Apostolicae Sedis [Rome: Typis Polyglottis Vaticanis, 1911], [Ano 3, vol. 3], 657, https://lnx.pliniocorreadeoliveira.info/sao-pio-x-sua-profecia-sobre-a-conversao-da-franca-a-pretensao-e-a-grande-tentacao-do-contra-revolucionario/#gsc.tab=0

 

[RD1] No original em inglês, o Autor diminuiu a citação de 136 palavras para 112 a fim de respeitar os direitos de autor e fazer «uso justo».

 

Fonte: Luiz Sérgio Solimeo – Substack, 12 de Outubro de 2026

 

 

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