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A sombra de Lutero na Amoris Laetitia – Encontro de bispos em Roma

03 de Outubro de 2026

Luiz Sérgio Solimeo

Luiz Sérgio Solimeo

A sombra de Lutero na Amoris Laetitia – Encontro de bispos em Roma

O Papa Leão XIV convocou os presidentes das conferências episcopais para irem a Roma, de 7 a 14 de Outubro, a fim de participarem num encontro de uma semana sobre a exortação apostólica do Papa Francisco «Amoris Laetitia». Disse o Pontífice:

«À luz das mudanças que continuam a afectar as famílias, decidi convocar os presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo em Outubro de 2026, num esforço para se proceder, em escuta mútua, a um discernimento sinodal sobre os passos a dar para proclamar o Evangelho às famílias de hoje, à luz da Amoris Laetitia e tendo em conta o que está actualmente a ser feito nas Igrejas locais.» [1]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn1

 

 

É surpreendente que o Papa tenha escolhido este documento, tão contestado pelos Cardeais [2], para abordar a crise que a família atravessa, afectada sobretudo pela disseminação do divórcio entre os católicos. Pois, em vez de se debruçar sobre os males morais e sociais do divórcio, como fizeram os Papas do passado, a Exortação Apostólica Amoris Laetitia (AL) [3] procurou diminuir, ou mesmo anular, a gravidade do pecado dos divorciados e recasados.[4]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn4

 

De acordo com a AL, nos «casais irregulares» – que é como o documento se refere aos divorciados e recasados – os factores que eximem as pessoas da culpa do pecado no foro interno são tais que os divorciados recasados e os casais em união de facto já não devem ser presumidos como pecadores públicos, como se lê no nº 301 do documento:

«Por conseguinte, já não se pode simplesmente afirmar que todos aqueles que se encontram em qualquer situação “irregular” vivem em estado de pecado mortal e estão privados da graça santificante.»

 

 

E no nº 305, diz-se:

«Devido a formas de condicionamento e a factores atenuantes, é possível que, numa situação objectiva de pecado – que pode não ser subjectivamente culpável ou plenamente tal – uma pessoa possa estar a viver na graça de Deus, possa amar e possa também crescer na vida da graça e da caridade, enquanto recebe a ajuda da Igreja para esse fim.»

«Já não» estão em estado de pecado mortal? O que já não nos permite presumir que os casais «irregulares» são pecadores públicos? Será algo novo em relação à doutrina tradicional e à prática pastoral da Igreja?

 

O teólogo Pe. Serafino Lanzzeta comentou a este respeito:

«Como pode a Amoris Laetitia formular este novo princípio sem contrariar o que sempre foi ensinado pela Igreja?»[5]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn5

Como podemos explicar esta mudança, quando pensamos nas palavras do Divino Redentor: «O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão» (Mt 24, 35)?

 

«Já não» ou em alguns casos?

 

 

Mas, depois de dizer que «já não se pode simplesmente afirmar» que as pessoas que vivem em adultério estão em pecado mortal (dando assim uma norma geral), a AL contradiz-se, afirmando que «Em certos casos, isto [a pastoral] pode incluir a ajuda dos sacramentos.» (Nº 305, nota de rodapé 351)

Ora, se já não se pode dizer que os adúlteros estão em pecado, então estão livres para receber a absolvição sacramental e a comunhão, como qualquer crente em estado de graça. Esta é uma das contradições da AL que não foi explicada.

 

As Dubia sem resposta

 

De tal forma a AL apresenta princípios morais que estão em desacordo com a doutrina católica, que quatro cardeais, Raymond L. Burke, Walter Brandmüller, Carlo Caffara e Joachim Meisner, escreveram cinco questões –  Dubia (Dúvidas) – dirigidas às autoridades romanas, perguntando se, após a AL, ainda poderiam seguir a doutrina tradicional da Igreja, baseada nas Escrituras, na Tradição e no Magistério da Igreja.

 

 

Os ilustres Cardeais perguntaram:

«Após a Amoris Laetitia, nº 301, ainda é possível afirmar que uma pessoa que vive habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como o mandamento que proíbe o adultério (cf. Mt 19:3-9), está em situação objectiva de pecado grave habitual? (cf. Pontifício Conselho para os Textos Legislativos, Declaração de 24 de junho de 2000)» [6]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn6

 

A Doutrina mudou?

 

Para manter as afirmações contraditórias da AL, a única resposta lógica estaria na hipótese de ter este documento modificado a doutrina da Igreja.

Foi, ao que parece, a resposta do Papa Francisco, no avião, durante o seu voo de regresso da Grécia. Um jornalista perguntou ao Papa Francisco se existem agora novas possibilidades concretas que não existiam antes da publicação da AL. A resposta do Papa foi enfática: «Posso dizer que sim; ponto final.»[7]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn7

O que são estas «possibilidades concretas» criadas pela AL, senão a alteração da Doutrina Católica?

Ora, nenhum Papa pode mudar a Doutrina da Igreja, como é óbvio e conforme foi declarado no Concílio Vaticano I, no decreto sobre a infalibilidade pontifícia:

 

 

«Pois o Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro não para que eles, pela sua revelação, dessem a conhecer alguma nova doutrina, mas para que, com a sua assistência, pudessem guardar religiosamente e expor fielmente a revelação ou o depósito da fé transmitido pelos apóstolos.» (Denz. 1836)

 

A sombra de Lutero

 

Além das Dúvidas dos Cardeais, expostas a 16 de Julho de 2017, intelectuais católicos, eclesiásticos e leigos escreveram ao Papa Francisco uma carta intitulada Correctio filialis de haeresibus propagatis («Correcção filial sobre as heresias propagadas»).[8]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn8

Nesta carta, os signatários, inicialmente 40, depois mais de duzentos, afirmam «que o Papa, através da sua Exortação Apostólica Amoris Laetitia e de outras palavras, acções e omissões relacionadas, defendeu efectivamente 7 posições heréticas sobre o matrimónio, a vida moral e a recepção dos sacramentos e fez com que essas opiniões heréticas se espalhassem na Igreja Católica.»[9]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn9

 

A Correctio mostra a influência do modernismo na AL, bem como os erros de Lutero:

«Uma segunda causa da crise é a aparente influência das ideias de Martinho Lutero sobre o Papa Francisco. A carta mostra as ideias que tinha Lutero – fundador do protestantismo – sobre o casamento, o divórcio, o perdão e a lei divina e como elas correspondem às que o papa tem promovido por palavras, acções e omissões. Também assinala o elogio explícito e sem precedentes feito pelo Papa Francisco ao heresiarca alemão.»[10]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn10

 

Esta sombra de Lutero na AL foi claramente reconhecida pelos apoiantes entusiastas do documento, como se pode ver num artigo no jornal dos bispos italianos, L'Avvenire. O título do artigo resume a tese: «Amoris Laetitia e Lutero: convergências surpreendentes», de Luciano Moia.

Depois de sintetizar os pensamentos do heresiarca sobre o matrimónio, o autor comenta:

«A profundidade de pensamento e a capacidade de interpretar o valor conjugal como um caminho comum para a salvação permitem uma comparação entre o que Lutero escreveu e pensou há cinco séculos com o que o Papa Francisco propõe hoje na Amoris Laetitia. Pode parecer surpreendente, e alguns considerarão o paralelo inapropriado mas, ao reler os textos verdadeiramente pouco conhecidos do pai da Reforma sobre o matrimónio, um teólogo brilhante como o Pe. Francesco Pesce não hesita em escrever: “A exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia apresenta numerosos elementos que parecem abrir a possibilidade de estruturar um diálogo com o que emergiu sobre o matrimónio por e para Lutero.”»[11]

 

 

«Sê pecador e peca fortemente»

 

A fé, na concepção de Lutero, é mera confiança de que já estamos salvos pelos méritos de Cristo. E, em oposição ao princípio da não contradição, afirma-se que, mesmo pecando, a pessoa permanece santa. De acordo com a famosa fórmula de Lutero, o homem é «simultaneamente pecador e justo (simul justus et peccator).»[12]

E no famoso conselho de Lutero ao seu discípulo Melancton, numa carta de 1521: «Sê pecador e peca fortemente, mas crê ainda mais fortemente.»[13]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn13

 

Fidelidade no matrimónio

 

Esta posição do falecido Papa argentino, assumida pelo seu Sucessor agostiniano, contrasta com a doutrina tradicional da Igreja, resumida nas sábias palavras de Pio XI na Encíclica Casti Connubii, que exalta a fidelidade dos cônjuges no matrimónio:

«A segunda bênção do matrimónio, que dissemos ter sido mencionada por Santo Agostinho, é a bênção da honra conjugal, que consiste na fidelidade mútua dos cônjuges no cumprimento do contrato matrimonial, de modo que o que pertence a uma das partes em virtude deste contrato sancionado pela lei divina não lhe possa ser negado nem permitido a qualquer terceira pessoa; nem se possa conceder a uma das partes qualquer coisa que, sendo contrária aos direitos e às leis de Deus e totalmente oposta à fidelidade matrimonial, nunca possa ser concedida. (…)

Pois a fidelidade matrimonial exige que marido e mulher se unam num amor especialmente santo e puro, não como os adúlteros se amam, mas como Cristo amou a Igreja. Este preceito foi estabelecido pelo Apóstolo quando disse: “Maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja”, essa Igreja que Ele verdadeiramente abraçou com um amor ilimitado, não em benefício próprio, mas buscando apenas o bem da Sua Esposa.»[14]https://faithandtradition.substack.com/p/luthers-shadow-in-amoris-laetitia?utm_source=post-email-title&publication_id=6521693&post_id=218203356&utm_campaign=email-post-title&isFreemail=true&r=4e38vg&triedRedirect=true&utm_medium=email - _edn14

 

 

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Notas:

 

[1] MENSAGEM DE SUA SANTIDADE O PAPA LEÃO XIV POR OCASIÃO DO DÉCIMO ANIVERSÁRIO DA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL AMORIS LAETITIA: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/pont-messages/2026/documents/20260319-messaggio-amorislaetitia.html (Destaque nosso.)

 

 

[2] Ver: A New and Confusing Explanation of Amoris Laetitia (Uma nova e confusa explicação de Amoris Laetitia), por Luiz Sérgio Solimeo 20/3/2017: https://www.tfp.org/new-confusing-explanation-amoris-laetitia/

 

[3] EXORTAÇÃO APOSTÓLICA PÓS-SINODAL AMORIS LÆTITIA DO SANTO PADRE FRANCISCO, https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia_en.pdf. https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/pont-messages/2026/documents/20260319-messaggio-amorislaetitia.html (Destaque nosso.)

https://laratranslate.com/

[4] Ver: Because of Its Grave Errors 'Amoris Laetitia' Should Be Rejected, (Por causa dos seus graves erros, Amoris Laetitia deveria ser rejeitada), por Luiz Sérgio Solimeo, 4/5/2016: https://www.tfp.org/because-of-its-grave-errors-amoris-laetitia-should-be-rejected/

 

 

[5] Padre Lanzetta (Franciscanos da Imaculada): «Correctio Filialis é um acto de amor ao Papa», http://www.lafedequotidiana.it/padre-lanzetta-francescani-dellimmacolata-la-correctio-filialis-un-atto-damore-verso-papa. Consultado em 30/12/17 (Destaque nosso.)

 

[6] Texto integral e notas explicativas das perguntas dos Cardeais sobre «Amoris Laetitia», https://www.ncregister.com/blog/full-text-and-explanatory-notes-of-cardinals-questions-on-amoris-laetitia (9/3/2021)

 

[7] Conferência de imprensa «PapaFrancisco no voo de regresso de Lesbos, às 21h15» (Tradução da nossa Redacção e destaque nosso). Consultada em 22-4-2026.

[8] RESUMO DA «CORRECÇÃO FILIAL»,

https://www.correctiofilialis.org/

 

[9] RESUMO DA "CORRECÇÃO FILIAL"

 

[10] RESUMO DA «CORRECÇÃO FILIAL»

 

[11] Luciano Moia, Amoris laetitia e Lutero, quegli incroci sorprendenti (Amoris Laetitia e Lutero: convergências surpreendentes): https://www.avvenire.it/famiglia/amoris-laetitia-e-lutero-quegli-incroci-sorprendenti_83609 (Tradução da nossa Redacção e destaque nosso). Ver também: Stefano Fontana, Luther exalted by Italian Bishops' daily as precursor of Amoris Laetitia (Lutero exaltado pelo jornal dos bispos italianos como precursor da Amoris Laetitia) https://newdailycompass.com/en/luther-exalted-by-italian-bishops-daily-as-precursor-of-amoris-laetitia

https://newdailycompass.com/en/luther-exalted-by-italian-bishops-daily-as-precursor-of-amoris-laetitia

[12] M. Lutero, Werke, (Edição de Weimar), 56, 272 e 513; Cf. Erwin Iserloh, Jospeh Glazik, Hubert Jedin, Reformation and Counter Reformation, (Londres: Burns & Oates, 1980), p. 27.

 

[13] «Sê pecador e peca fortemente: uma carta de Lutero a Melanchthon» Carta n.º 99, 1 de Agosto de 1521, de Wartburg (Segmento) Traduzida por Erika Bullmann Flores, de:  Dr. Martin Luther's Saemmtliche Schriften (Obras Completas do Dr. Martinho Lutero), Dr. Johannes Georg Walch, Ed. (St. Louis: Concordia Publishing House, s.d.), Vol. 15, cols. 2585-2590.

 

[14] CASTI CONNUBII - ENCÍCLICA DO PAPA PIO XI SOBRE O MATRIMÓNIO CRISTÃO, n.ºs 23, 27 (Destaque nosso) https://www.vatican.va/content/pius-xi/es/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19301231_casti-connubii.html


 

Fonte: Luiz Solimeo - Substack, 30 de Setembro de 2026

Tradução: Cristãos Atrevimentos

 

 

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