Ajude o site Cristãos Atrevimentos com qualquer valor

Quero Doar

Os destinos supremos do homem

25 de Setembro de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

Os destinos supremos do homem

De 7 a 14 de Outubro de 2026, terá lugar no Vaticano o anunciado encontro entre o Papa Leão XIV, os chefes das Igrejas católicas orientais sui iuris e os presidentes das Conferências Episcopais. O evento surge com a intenção de «proceder, na escuta recíproca, a um discernimento sinodal sobre os passos a dar para anunciar o Evangelho às famílias de hoje, à luz da Amoris laetitia e tendo em conta o que está a ser feito nas Igrejas locais».

 

 

Para preparar os trabalhos da assembleia, no passado dia 6 de Julho, a Secretaria-Geral do Sínodo dos Bispos e o Dicastério para os Leigos, Família e Vida publicaram um Percurso temático, enviado às Igrejas locais. O quarto ponto do texto, intitulado «Nas dificuldades da vida: acompanhar e apoiar. Caminhar com as famílias em situações complexas», retoma, com estas palavras, o tema central do capítulo oitavo da exortação pós-sinodal Amoris laetitia: «Que passos foram dados para apoiar aqueles que vivem em situações de fragilidade ou de dificuldade? Que resistências surgem? Como construir comunidades cristãs nas quais aqueles que viveram a experiência do sofrimento, do abandono, da separação e do divórcio possam sentir-se verdadeiramente ouvidos, participantes e corresponsáveis? Que experiências concretas mostram já hoje o rosto de uma Igreja cada vez mais capaz de proximidade, discernimento, acompanhamento e valorização, ajudando as pessoas e as famílias a reencontrarem a confiança, a reconhecerem-se como parte da comunidade e a experimentarem a misericórdia de Deus?».

 

De acordo com a exortação Amoris laetitia de 19 de Março de 2016, face ao sofrimento daqueles que vivem a experiência de um casamento fracassado, a Igreja deve empenhar-se no plano pastoral, mostrando-se como uma casa acolhedora e misericordiosa. Mas até onde pode ir este acolhimento? É possível admitir aos sacramentos quem vive de forma estável numa situação objectiva de pecado grave, como a dos divorciados recasados, sem contradizer a lei natural e divina?

A Amoris laetitia parece responder positivamente a esta pergunta quando afirma, no nº 301, que «já não se pode dizer que todos aqueles que se encontram numa situação dita “irregular” vivam em estado de pecado mortal, privados da graça santificante». No nº 305, acrescenta: «Devido a condicionamentos ou factores atenuantes, é possível que, numa situação objectiva de pecado – que não seja subjectivamente culpável ou que não o seja plenamente – se possa viver na graça de Deus, se possa amar e se possa também crescer na vida de graça e de caridade, recebendo para tal o auxílio da Igreja».

 

É verdade que a teologia moral católica sempre distinguiu entre a gravidade objectiva de um acto e a plena imputabilidade subjectiva de quem o comete. A ignorância, o medo, a violência, os hábitos inveterados e outros condicionamentos podem diminuir a responsabilidade pessoal. Mas o problema colocado pela Amoris laetitia não diz respeito apenas ao juízo sobre a consciência individual, que, em última instância, pertence a Deus. Diz respeito à possibilidade de transformar uma avaliação prudencial do confessor numa prática eclesial que permita o acesso à Eucaristia a quem continua publicamente a viver numa situação contrária a um mandamento divino, sem a intenção de a abandonar.

 

Por este motivo, em 2016, quatro cardeais – Raymond Leo Burke, Walter Brandmüller, Carlo Caffarra e Joachim Meisner – apresentaram ao Papa Francisco cinco dubia, perguntando, entre outras coisas, se, após a Amoris laetitia nº 301, ainda era possível afirmar que «uma pessoa que vive habitualmente em contradição com um mandamento da lei de Deus, como, por exemplo, o que proíbe o adultério (cf. Mt 19, 3-9), se encontra numa situação objectiva de pecado grave habitual». Nem esta pergunta nem as outras dubia formuladas pelos cardeais jamais receberam resposta.

 

O encontro de Outubro promovido por Leão XIV reiterará os erros e as ambiguidades da Amoris laetitia ou procurará reinterpretar o documento do Papa Francisco num sentido ortodoxo, reafirmando que quem se encontra numa situação objectiva de pecado grave não pode receber a Eucaristia sem o arrependimento, a absolvição sacramental e o propósito de mudar de vida?

 

Como observa o padre Claude Barthe num seu recente e lúcido artigo (https://www.resnovae.fr/revenir-au-magistere/), «este encontro poderá representar uma ocasião providencial para alguns pastores corajosos porem em evidência o considerável dano causado pela exortação apostólica pós-sinodal Amoris Laetitia à moral natural e católica e, consequentemente, à salvação das almas». Com efeito, nenhuma prática pastoral pode ser autenticamente católica se contradiz, ainda que indirectamente, a verdade doutrinal que deveria tornar visível.

 

No entanto, o problema fundamental está a montante e não a jusante. A razão profunda de tantos fracassos matrimoniais, com o consequente desenvolvimento de situações de dificuldade, sofrimento e pecado, reside na perda do significado do matrimónio e, de forma mais geral, no obscurecimento da lei natural e divina. Ainda mais a montante, há a ausência, por parte de muitos pastores da Igreja, de uma pregação coerente e sistemática que recorde ao homem quais são o fim da sua vida e os seus destinos supremos. A Igreja não é simplesmente uma casa-refúgio onde aqueles que estão espiritualmente ou psicologicamente atribulados podem reencontrar o seu equilíbrio através da convivência com os irmãos. É certamente uma mãe que acolhe e cuida das feridas, mas é antes de mais a instituição divina fundada por Jesus Cristo para guardar a verdade, administrar os sacramentos e oferecer aos homens os instrumentos necessários para a salvação eterna. A sua missão não é garantir uma serenidade puramente terrena, mas conduzir as almas a Deus. Se for esquecida esta finalidade sobrenatural, até o acompanhamento pastoral se reduz a uma forma de assistência psicológica ou social.

 

Os nossos destinos não se esgotam com a vida terrena. Existe uma vida futura na qual haverá a perfeita sanção dos méritos e deméritos de cada um. Como ensina São Tomás de Aquino, assim que a alma se separa do corpo, um raio de luz penetra-a profundamente e, «iluminada por esta luz sobre os seus próprios méritos ou deméritos, a alma vai, como que por si própria, para o lugar da sua eternidade, semelhante àqueles corpos leves ou pesados, que sobem ou descem para onde o seu movimento deve terminar» (Summa Theologiae, Supl., q. 69, a. 2). O Céu, plenitude indescritível de felicidade na posse eterna de Deus, e o inferno, privação eterna de Deus e presença imensa de todo o mal, são os nossos destinos supremos. Recordar esta verdade significa olhar para a realidade com os olhos da fé. E esta é a missão da Igreja.

 

O desespero que espera na eternidade aqueles que morrem impenitentes, depois de terem transgredido gravemente a lei divina, é infinitamente mais terrível do que o sofrimento passageiro daqueles que, na terra, lutam por respeitar essa lei. A resposta à crise da família não consiste em adaptar a lei de Deus às fraquezas humanas, mas em restituir aos homens a confiança no poder da graça, que tudo pode, mesmo aquilo que parece humanamente impossível. São estas as palavras de vida e de esperança que é legítimo esperar de uma assembleia eclesial dedicada ao anúncio do Evangelho.

 

Fonte:

Roberto de Mattei - Substack, 21 de Setembro de 2026

Contribua doando qualquer valor Quero Doar

Donativos