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Dois bispos que não se calam

02 de Setembro de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

Dois bispos que não se calam

Existem hoje bispos capazes de se dirigir a Roma, com uma linguagem clara e firme, mas sem perder o respeito e, sobretudo, o vínculo hierárquico que os une ao Romano Pontífice? Existem, como demonstram dois exemplos recentes do mês de Agosto.

A 10 de Agosto, Michael Haynes publicou no seu blogue «Per Mariam» um artigo de Mons. Marian Eleganti, beneditino e antigo bispo auxiliar da diocese de Chur, sobre o tema «O declínio do ministério petrino». Mons. Eleganti inspira-se na audiência privada concedida em Julho por Leão XIV à «Madrinha do Punk», Patti Smith, para formular uma crítica mais geral à transformação da imagem e do exercício do papado nas últimas décadas. «Há muito tempo que me perturba pessoalmente o facto de, a partir de João Paulo II, os Papas terem começado, cada vez com mais frequência, a falar de forma totalmente informal nas mais diversas ocasiões (por exemplo, num avião ou à beira da estrada, como fez recentemente o Papa Leão XIV em Castel Gandolfo)».

Contribua doando qualquer valor Quero Doar O problema é a tendência, que se desenvolveu sobretudo a partir de João Paulo II, de multiplicar entrevistas, declarações informais, audiências a personalidades famosas, viagens e aparições nos meios de comunicação social. Tudo isto corre o risco de fazer com que o Papa pareça «simplesmente mais um membro do establishment internacional», enquanto Pedro e Paulo não procuravam os holofotes, mas anunciavam o Evangelho.

Eleganti recorda as relações de Francisco com Emma Bonino e Eugenio Scalfari e as audiências concedidas ao jesuíta James Martin. O Papa, ao receber publicamente determinadas pessoas sem corrigir, de forma igualmente pública, os seus erros, corre o risco de «tornar menos clara a posição da Igreja e, dependendo das circunstâncias, pode até escandalizar os fiéis».

Segundo o Mons. Eleganti, desta forma os Papas perderam progressivamente «autoridade e capital espiritual». O Papa deveria falar menos e, quando fala, expressar-se «com poucas palavras, inequívocas e claras». O bispo suíço apela a um discernimento autêntico, em oposição ao activismo que multiplica viagens, audiências e apertos de mão, enquanto problemas doutrinários graves permanecem sem resposta.

Esta transformação não começa com Francisco. João Paulo II, sobretudo com as Jornadas Mundiais da Juventude, contribuiu para conferir ao Papa as características de uma superestrela. Bento XVI continuou a publicar livros e entrevistas mesmo durante o pontificado; Francisco chegou a escrever autobiografias. Assim, foi-se afirmando progressivamente uma distinção pouco feliz entre a pessoa privada do Papa, as suas opiniões e o seu autêntico ensinamento magisterial.

O Papa não é simplesmente um ouvinte: ocupa a Cátedra de Pedro e é, antes de mais nada, mestre da Cristandade. «Não é necessário sobretudo em Roma?», pergunta Mons. Eleganti. A tese conclusiva é, portanto, que os Papas se tornaram «demasiado humanos no exercício do seu ofício»: a pessoa ofuscou a função. O modelo deveria ser, pelo contrário, a regra de São João Batista: «Ele deve crescer; eu, pelo contrário, diminuir» (Jo 3, 30). O Papa é o amigo e o representante do Esposo, não o próprio Esposo: só Cristo deve permanecer no centro.

Três dias depois, a 13 de Agosto, numa longa carta aberta dirigida ao Papa Leão XIV, Mons. Rob Mutsaerts, bispo auxiliar de ’s-Hertogenbosch, na Holanda, submeteu o processo sinodal a um critério superior a qualquer outra consideração eclesial: a salvação das almas. «Salus animarum suprema lex», recorda ele, questionando-se se o processo sinodal terá realmente aproximado as almas de Cristo e da salvação eterna. A sua crítica, esclarece, não decorre de falta de respeito para com o Papa, nem pretende pôr em dúvida as boas intenções dos protagonistas da sinodalidade. Mas as intenções devem ser julgadas pelos resultados: «Pelos seus frutos os reconhecereis». Após anos de consultas, encontros e documentos, é necessário, portanto, perguntar-se: a fé tornou-se mais forte? Cristo foi anunciado com maior clareza? Aumentaram as conversões, as vocações sacerdotais, a frequência à missa e a devoção eucarística?

Mutsaerts sublinha que o problema surge quando a sinodalidade, que é um meio, corre o risco de se tornar um fim, transformando-se num processo permanente. A Igreja sempre conheceu concílios, sínodos e formas de consulta, mas a sua natureza não deriva do diálogo: deriva de Cristo e da Revelação recebida. A fé não se constrói recolhendo as opiniões dos fiéis, porque «a verdade não é produzida pelo consenso». A Igreja deve, certamente, ouvir, mas, acima de tudo, Cristo, a Escritura, a Tradição, os santos e o Magistério. Quando, pelo contrário, se parte das expectativas do homem contemporâneo para se questionar como é que o Evangelho se pode adaptar a elas, esquece-se uma palavra essencial do cristianismo: conversão. «Não é o Evangelho que deve mudar; é o homem que deve mudar».

Esta é «a grande ausente» do processo sinodal. A crise da Igreja ocidental está, aliás, à vista de todos: igrejas vazias, conventos que desaparecem, poucas vocações, confessionários abandonados, ignorância das verdades da fé. Perante esta situação, observa o bispo holandês, a questão decisiva deveria ser: «Como podemos reconquistar o mundo para Cristo?» Em vez disso, dedica-se muita energia a estruturas, participação, inclusão, papel das mulheres e processos de tomada de decisão: «Uma casa em chamas tem prioridades diferentes das questões de gestão doméstica».

As grandes reformas da Igreja, recorda Mons. Mutsaerts, não nasceram, em primeiro lugar, de novas estruturas, mas dos santos: Bento, Bernardo, Francisco, Domingos, Teresa de Ávila, Carlos Borromeu, João Bosco. «Uma paróquia com um pároco santo tem mais futuro do que uma diocese com vinte grupos de trabalho sobre a sinodalidade». Também a crise litúrgica revela que o problema fundamental não é administrativo, mas religioso: quando se perde o sentido do sacrifício da Missa, do sagrado, da confissão e da adoração eucarística, «a Igreja não tem um problema de governo. Tem um problema de fé».

Por fim, Mutsaerts apresenta o episódio dos discípulos de Emaús como uma imagem da autêntica sinodalidade. Cristo caminha com os discípulos, ouve-os e permite-lhes expressar as suas desilusões; mas depois não confirma a interpretação deles: corrige-a, explicando-lhes as Escrituras. E os discípulos não ficam em Emaús a discutir indefinidamente sobre a sua experiência: levantam-se, regressam a Jerusalém e anunciam Cristo. «O processo sinodal ficou em Emaús», afirma Mutsaerts.

Daí o apelo final a Leão XIV: «Dê-nos clareza». O mundo não precisa de uma Igreja que reflita o espírito do tempo, mas de uma Igreja missionária que anuncie Cristo. Quando todos os sínodos estiverem concluídos e todos os documentos esquecidos, restará apenas uma pergunta: «Levámos as pessoas confiadas aos nossos cuidados mais perto de Jesus Cristo?».

 

Fonte: Roberto de Mattei – Substack, 24 de Agosto de 2026

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