Radicalismos novos
Foram anos de lida, publicações, congressos. No curto, a solução revolucionária foi encontrada aos poucos e teve o seu rumo, caracterizado por (i) radicalizar a proposta revolucionária em vigor [o marxismo-leninismo que fracassava]; (ii) aprofundar a dissolução até ao interior da família [caldo de cultura e nascedouro da sociedade hierárquica]; (iii) e ainda do próprio homem [p. ex., personalidades intituladas de autoritárias e com vincos que perenizavam a ordem antiga], sem a qual repetiriam fracassos evidentes; bem como (iv) apontar adversários novos, até então despercebidos; (v) ademais de deixar de lado velharias estorvantes; (vi) e, finalmente, admitir tácticas graduais, de onde poderia vir o triunfo.
«Ni dieu, ni maître»
«Nem deus, nem senhor» ou «Nenhum deus, nenhum senhor». Esta conhecida divisa anarquista e socialista do século XIX, proclamando desafiante a rejeição de quaisquer autoridades, divina, política, social ou patronal, poderia ter sido lema adequado da Escola de Frankfurt. Em relação ao programa do século XIX, a difusão do seu pensamento aprofunda-o em dois pontos: o esboroamento da autoridade familiar (com o ataque à formação da chamada personalidade autoritária) e ainda a denúncia da prevalência da razão (ênfase na instrumental) reprimindo emoções e instintos no interior das personalidades (amálgama da psicanálise como divulgada pela referida escola e do freudismo com o ideário marxista).
Extinguir a dominação, generalizar a emancipação
De verdade, a tarefa levada a cabo pela Escola de Frankfurt, simplificando, resume-se a duas: extinção da dominação e promoção da emancipação. Dominação relaciona-se com domínio, com senhorio, com senhor (dominus). Em todas as esferas, o mal causado pelo senhorio precisaria ser erradicado. A dominação acabará com a generalização da emancipação (ou desalienação). A etimologia de emancipar também esclarece muito. Emancipare (latim) junta o prefixo ex (fora, afastamento) com mancipium (acto de tomar posse, agarrar); por sua vez este junta manus (mão) e capere (pegar, capturar). Alienare significa entregar a outro. Numa palavra, é o programa para livrar-se da ascendência do outro, qualquer deles, Deus, pai, mãe, patrão, razão.
Corifeus
Enumero a seguir alguns de seus mais conhecidos corifeus. Max Horkheimer (1895-1973), criador da Teoria Crítica, corpo doutrinário central nas concepções da Escola de Frankfurt, exposta no livro Dialektik der Aufklärung (Dialética do Iluminismo). Dominação e emancipação são os conceitos vectores na Teoria Crítica. A razão no iluminismo ter-se-ia tornado instrumento de dominação, degenerou-se, passou a tratar a natureza e o homem como objectos de exploração, gerando nova forma de servidão e alienação. Foca a denúncia no que qualifica de razão instrumental, orientada para o cálculo, utilidade e eficácia. A ciência e a técnica passam a ser instrumentos de escravização, úteis para dominar a natureza e outros seres humanos.
Theodor Adorno (1903-1969), com a «Crítica do Iluminismo», escrita em conjunto com Horkheimer, também procurou derruir a crença na primazia acrítica da razão, considerada instrumento de dominação. A Revolução Francesa colocou uma mulher, escassamente vestida, representando a deusa Razão na catedral de Notre-Dame. Era símbolo da posição revolucionária no ápice na época, a razão humana, finalmente libertada de preconceitos, deveria ser adorada. Inauguraria época de felicidade, liberdade e progresso. Sobre tal base mítica se edificou o século XIX, grande parte do XX. Até hoje sobre tais pressupostos se edifica largamente a estrutura da presente civilização. As doutrinas de Adorno (e de Horkheimer) derrubavam tal divindade, vista como opressora, factor de dominação, obstáculo à igualdade. António Gramsci não levou o seu extremismo revolucionário ao ponto de atacar a primazia da razão como ordenadora da conduta humana. Neste ponto, e em vários outros, foi homem do Iluminismo.
Walter Benjamin (1892-1940), abre caminho para a arte revolucionária, distanciada e contestatária dos seus conceitos clássicos. Contestou a ideologia do progresso «incoerente, imprecisa». Via o nazismo como expressão patológica do Iluminismo, da modernidade civilizada. Benjamin suicidou-se quando fugia do nazismo, pouco antes de atravessar a fronteira francesa.
Erich Fromm (1900-1980), psicanalista, denunciou as regras morais como opressoras, causa de neuroses, propugnava a vida e a sociedade libertárias. Foi um integrante do grupo de Frankfurt que procurou unir marxismo e psicanálise, criando o chamado freudo-marxismo e a psicologia social analítica. A estrutura económica da sociedade moldaria desejos e comportamento. O indivíduo internalizaria (aspiraria) tal realidade, da qual precisaria se emancipar.
No mesmo rumo de Fromm, convém lembrar, entre outros, Wilhelm Reich (1897-1957) e Otto Fenichel (1897-1946). Herbert Marcuse (1898-1981), por muitos anos o mais célebre dos membros da Escola de Frankfurt, por ser considerado o guru dos movimentos estudantis libertários na Califórnia nos anos 60, sobretudo em Berkeley, e do Maio de 68 francês — diga-se de passagem, não apenas francês, nem só californiano, foi universal a contestação libertária, de raiz anarquista.
Novos sujeitos revolucionários
As concepções de Herbert Marcuse tiveram repercussão mundial. Entre elas, uma embebeu a bem dizer toda a esquerda e o progressismo. Marcuse afirmava, nos maiores países capitalistas a classe operária tinha perdido o seu potencial revolucionário. Buscava o bem-estar próprio, não era o «sujeito» da revolução, concebido em teoria. Os novos «sujeitos» estavam alhures; eram os grupos marginalizados e periféricos que sofriam com o sistema vigente, estudantes radicais, minorias raciais, imigrantes, movimentos feministas e contraculturais, negros, índios, inimigos da família tradicional, grupos favoráveis ao fim da repressão dos desejos sexuais. Hoje se acrescentariam outros, como o «Sul Global», os adversários de Israel; enfim, quaisquer pessoas ou grupos que contestam o Ocidente, os seus esteios, em particular o sistema capitalista e os Estados Unidos. São os novos «sujeitos» da revolução. O conjunto de tais movimentos formaria o que Marcuse chamava «A Grande Recusa», negação inteira dos valores da então ordem prevalente. A transformação não viria maiormente de fenómenos económicos, mas de oposição cultural, moral e de vida aos fundamentos da civilização ocidental.
Além do marxismo
A Escola de Frankfurt, com contribuições de Horkheimer, Adorno, Benjamin, Fromm, Reich (inalou o mesmo ambiente de marxismo contestatório) uniu ateísmo, marxismo, freudismo, psicanálise, radicalizou-os, dando origem a um corpo doutrinário que serviu de base, já a partir dos anos 30, para todo o movimento contestatário da civilização ocidental. E assim, junto com o gramcismo, as suas concepções fizeram parte do arcabouço doutrinário da maior parte da esquerda política e correntes ditas progressistas sobretudo a partir dos anos 50. Expandiu-se, influenciou pensadores em diversos países, caminhou junto com eles, como por exemplo Foucault e Derrida, investindo contra a modernidade, nascida do Iluminismo, as intituladas várias formas de dominação, inclusive a da razão. Estamos diante de corpo de doutrinas articulado que, sem muitas vezes o confessar abertamente, nega os fundamentos do marxismo. Abreviando, amplia o campo de análise, recusa, em suma, as suas distinções estáticas e rígidas, o seu carácter mecanista e determinista, que amputa largas faixas da realidade. O uso consagrou, contudo, expressões como marxismo ocidental, marxismo cultural, marxismo freudiano. Terão vida longa. Vejamos. Recordando, o fundamento filosófico do marxismo é o materialismo dialético — nada existe além da matéria. A matéria está em constante mutação, impulsionada por contradições internas. São forças opostas em conflito, forças de afirmação (tese), oposição (antítese) e superação (síntese), que incorpora os estágios anteriores. Mudanças graduais e quantitativas que se acumulam e, em certo momento, geram mudança qualitativa. Em síntese, é isso. São postulados apriorísticos, sem provas de qualquer natureza. Quando o método é aplicado ao estudo da sociedade e da história, gera o materialismo histórico. O movimento rumo ao igualitarismo da sociedade comunista (objectivo) é determinado pela luta que decorre dos meios de produção e seus instrumentos de produção que dão origem às relações de produção. Constituem a infraestrutura, a base económica da sociedade, que determina e molda a superestrutura. Esta — ideologia, leis, religião, cultura, instituições jurídicas — legitima e mantém o poder da classe que domina os meios de produção. São também apriorismos, não explicam as forças que agem no interior do homem, da sociedade e do Estado. Gramsci e a Escola de Frankfurt, no bruto, como dito, ampliaram o quadro, reintroduziram temas, que aliás em boa medida já eram estudados nos ambientes da esquerda (p. ex. nas várias correntes do chamado socialismo utópico). Apresentaram ao mundo um conjunto ideológico novo (ou pelo menos em alguns casos com roupagem nova), enormemente destrutivo, que ao mostrar objectivos de maneira explicada e fundamentada, amalgamaram e enrijeceram correntes revolucionárias, tornando ainda mais letal (dissolvente, se quisermos) a sua acção. A propósito, Jurgen Habermas, em 1987, no seu «Discurso Filosófico da Modernidade» teve afirmação reveladora: «A Teoria Crítica» foi inicialmente desenvolvida no círculo de Horkheimer para pensar as decepções políticas com a ausência de revolução no Ocidente, o desenvolvimento do estalinismo na Rússia soviética e a vitória do fascismo na Alemanha. Ela deveria explicar prognósticos marxistas equivocados, mas sem romper com as intenções marxistas”.
Mirada nas brumas do futuro
Em retrospectiva, acima, bosquejos da acção de um movimento apocalíptico. Agora, a prospectiva. Qual será o seu desenvolvimento e influência? Impossível saber. Como agir? O primeiro passo é conhecê-lo, divulgar a sua fisionomia, histórico, presença nos factos actuais e potencial de expansão. Foi o que, com limitações embora, procurou oferecer o presente esforço.
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* Péricles Capanema Ferreira e Melo é advogado e engenheiro civil (UFMG). Foi colaborador do mensário de cultura «Catolicismo» e da «Agência Boa Imprensa - ABIM».