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A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar retrospectivo (II)

07 de Agosto de 2026

Autor desconhecido

Autor desconhecido

A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar retrospectivo (II)

Fundo de bom senso natural, património milenar

 

Tal situação de recusa, aliás, persistiu e até se agravou em muitos casos. Em 1965, o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira observou no seu ensaio Baldeação ideológica inadvertida e Diálogo: «Há cem anos – em números redondos – vem o comunismo pregando às populações operárias do mundo inteiro a revolução social, o morticínio e a pilhagem. Para essa pregação, dispôs ele quase continuamente, ao longo desse século, de inteira liberdade de pensamento e de acção, em quase todos os países. Tampouco lhe faltaram recursos financeiros imensos, bem como especialistas e técnicos dos melhores, em matéria de propaganda. A despeito de tudo isso, as multidões têm-se manifestado, na sua grande maioria, pouco sensíveis aos acenos – que tão facilmente as poderiam fascinar – da demagogia marxista. Em nenhum país o comunismo logrou jamais a conquista do poder por eleições honestas. A causa desta insensibilidade está em parte no facto de que em muitos lugares se melhorou consideravelmente a situação das classes necessitadas. Mas é preciso não exagerar o alcance ideológico de melhorias tais: em algumas regiões, como o Norte da Itália, por exemplo, em que as condições do operariado não cessaram de progredir depois da segunda guerra mundial, o comunismo alcançou desconcertantes êxitos eleitorais. A causa da insanável inviabilidade da vitória comunista através das urnas está também, em alguma medida, na resistência que ao marxismo opõe o fundo de bom senso natural que constitui o património milenar e comum da humanidade. Este bom senso choca-se com o carácter essencialmente antinatural que se mostra em todos os aspectos do comunismo. Nos povos de civilização cristã, a esse factor acrescenta-se a incompatibilidade do espírito, da doutrina e dos métodos marxistas com o espírito, a doutrina e os métodos da Igreja. Da conjunção destes obstáculos é que decorreu o facto inconteste e imensamente significativo de que – repetimos – em cem anos de existência e acção, nenhum partido comunista tenha logrado tornar-se maioritário em qualquer país. Sobre este facto jamais será suficiente insistir, se quisermos ver na sua real perspectiva os obstáculos que o comunismo tem pela frente.»

 

Hegemonia cultural esteada no bom senso

 

O tema requer ampliação de horizontes, a saber, inclusão do pensamento de António Gramsci (1891-1937), dirigente do Partido Comunista Italiano. Gramsci não teve relação pessoal com integrantes da Escola de Frankfurt, mas o mesmo quadro de fundo os preocupava. Deveras, o problema não atazanava apenas intelectuais marxistas alemães, era universal. Gramsci, por anos, encarcerado, em cerca de trinta cadernos, anotou observações, reflexões, doutrina, material depois compilado em obra póstuma, os “Cadernos do Cárcere” (1ª edição entre 1948 e 1951). O problema que ele queria ver resolvido tinha um centro: o povo, mesmo o mais modesto operariado, não adere ao comunismo, apesar de todas as promessas. Por quê? Por causa do sentido comum, sintetizou Gramsci. Sentido comum em Gramsci tem significado próximo do nosso bom senso. Mas vai além. Inclui o que ele chama cultura. Para tal, Gramsci cunhou a expressão «hegemonia cultural». As classes dominantes, jargão dele, detêm normalmente a hegemonia cultural. A população considera normais (constituem parte do seu sentido comum) instituições, valores e hábitos que cimentam a ordem vigente. Ordem vigente, no caso analisado por Gramsci, a Itália, era constituída pelos ecos ainda muito audíveis da ordem temporal cristã. Enquanto persistisse aquela hegemonia cultural, seriam instáveis e enganosos os triunfos de ordem política — vencer eleições e tomar governos. O triunfo efectivo do comunismo só viria com a criação de outra «hegemonia cultural», alcançada mediante a «guerra de posição», desencadeada contra a então cultura dominante, com a concomitante articulação de um bloco hegemónico, labuta de décadas, talvez de mais de um século.

 

Longa Marcha através das instituições

 

Ecoando a nomeada da Longa Marcha dos comunistas chineses (1934-1935), o líder universitário Rudi Dutschke (1940-1979), principal figura das revoltas estudantis nos anos 60 na Alemanha, cunhou em 1967 a frase «der lange Marsch durch die Institutionen» — (a Longa Marcha através das instituições) — para indicar a nova táctica comunista (gramsciana, é verdade) de conquista gradual das mentalidades, da sociedade civil e do poder. Mais que a táctica leninista da conquista violenta do Estado, geradora da ditadura soviética, propunha Dutschke a revolução cultural lenta, mediante a ocupação paulatina dos meios de divulgação, academia, órgãos públicos, modificações no interior das famílias etc. A conquista política chegaria depois, seria estável, e em consequência da acção anterior.

 

Ofensiva em cinco frentes

 

Para conseguir mudar a cultura (de facto, na nossa linguagem, melhor, a civilização; estruturas, valores, princípios, hábitos que esteiam e embebem uma ordem temporal), Gramsci indicou a necessidade de agir em cinco frentes na sua «guerra de posição». De outro modo, em vez de um assalto frontal e violento ao Estado («guerra de movimento»), ocupação gradual das instituições da sociedade civil:

 

1ª) Meios de divulgação. Jornais, revistas, rádio e livros que formam a opinião pública e moldam o senso comum. Hoje seria preciso incluir TV e redes sociais. Em resumo, embebê-los de pessoal revolucionário e, com linguagem revolucionária, torná-los veículos de formação, propaganda e intimidação.

2ª) Igreja. Gramsci analisava a Itália, referia-se especificamente à Igreja Católica. Tem grande capilaridade a Igreja, vai até à ponta da sociedade, unifica visões de mundo (Weltanschauung), forma valores morais, orienta o comportamento. O Clero, religiosos, teólogos, professores das instituições educativas católicas precisavam ser propagadores da nova hegemonia cultural. Contudo, combatidos, silenciados, no caso de constituírem obstáculos a ela.

3ª) Academia e Escola. São os locais de formação dos intelectuais, propagam ideologias, desenvolvem consciência crítica. Para o pensador italiano, os intelectuais organizam a cultura e a sociedade. Constroem a hegemonia de ideias, moral, política. Sem eles, não é factível a hegemonia cultural, nem o bloco hegemónico.

4ª) Família. Base primária, é o espaço inicial de socialização e coerção, molda condutas, transmite valores, as primeiras e mais fundamentais noções de autoridade, comportamento e visão do mundo. Normaliza o modo de vida e a disciplina social vigentes. Tem aqui a sua raiz o senso comum.

5ª) Partidos políticos e sindicatos. Formam, coordenam, formulam projectos. O partido político na Itália tinha funções de agregação, formação e acção. Era o «intelectual colectivo», organizaria a vontade das classes subalternas, trabalharia pela hegemonia, rumo à mudança na sociedade.

 

Pela acção contínua no interior de tais grupos se formaria, com base popular crescentemente estável, o consenso revolucionário, atingir-se-ia, por fim, a hegemonia cultural, da que derivaria o bloco hegemónico. Em duas palavras, acima, linhas gerais da doutrina e práxis gramscianas. Eram necessárias para bem colocar o foco nas doutrinas da Escola de Frankfurt.

 

Esboroamento na doutrina e nos factos

 

Na origem, dificuldades graves, já em parte acima relatadas, formaram o caldo de cultura dentro do qual germinou a referida escola. Assombrava o facto bruto, percebido por todos: no «socialismo real» (a Rússia soviética) inexistiam amanhãs que cantam, mas apareciam cada vez mais amanhãs que urravam de opressão, fome, dor e desespero. E no Ocidente, o operariado não aderia ao comunismo, nem se esforçava pela revolução social. A sua ambição generalizada, percebida com facilidade, pelo contrário, era melhorar de vida, imitar no possível o estilo de vida burguês. Estava notório, a doutrina tinha furos. De outro ângulo, aos olhos de muitas correntes imbuídas de comunismo apagava-se a credibilidade da utopia marxista.

 

Busca da solução

 

Como sair da enrascada? Trato aqui de Frankfurt, atalho entre vários tentados, de facto, o mais relevante. Outras tentativas existiram, em geral, caminhos empedrados de fracassos. Como disse, estão fora do âmbito do presente afã.

 

Alicerces

 

Em 1923, o académico Félix Weil, jovem marxista milionário, doou os recursos necessários para a fundação do Institut für Sozialforschung [Instituto de Pesquisa Social], que deu corpo definido a um grupo destacado de intelectuais marxistas, depois conhecido como a Escola de Frankfurt. O nome preferido inicialmente foi “Instituto de Pesquisas Marxistas”, logo abandonado; o primeiro director escolhido foi György Lukács (1885-1971), intelectual marxista húngaro, considerado precursor da Escola de Frankfurt. Natural o nome: o instituto, ligado à universidade de Frankfurt, funcionava nesta cidade; tinha ali um edifício de sete andares. Com a ascensão do nazismo, os seus líderes (a maioria de ascendência judaica) fugiram da Alemanha e estabeleceram-se em especial nos Estados Unidos. O instituto foi transferido em 1934 para Nova York, ligou-se à Universidade de Colúmbia e só voltou para a Alemanha em 1950. Herbert Marcuse permaneceu na Califórnia.

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* Péricles Capanema Ferreira e Melo é advogado e engenheiro civil (UFMG). Foi colaborador do mensário de cultura «Catolicismo» e da «Agência Boa Imprensa - ABIM».

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