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A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar retrospectivo (I)

03 de Agosto de 2026

Autor desconhecido

Autor desconhecido

A Escola de Frankfurt: mitos e realidade em olhar retrospectivo (I)

 

Péricles Capanema Ferreira e Mello*

 

Toxinas duradouras

 

Em 14 de Março último faleceu Jürgen Habermas (1929-2026), nos nossos dias principal figura da Escola de Frankfurt (2ª geração). Anos antes, a 12 de Janeiro de 2020, faleceu sir Roger Vernon Scruton (1944-2020), renomado scholar inglês, autor de pertinentes críticas, amplamente divulgadas, à referida escola. Dos dois, não tratarei, fogem deste foco. A eles aludi apenas para dirigir a atenção dos leitores à corrente de ideias que não morreu, que repercute a todo momento, embebe ambientes e, à vera, está muito viva e intoxica o mundo inteiro. Viva, note-se, mormente nos seus rebentos. O assunto do artigo é a Escola de Frankfurt, aventado embora de forma sintética. Reitero, porém, é a matéria, ainda que por vezes envolta em mitos, de enorme importância. Já de há muito, décadas, as doutrinas de contestação e análises da sociedade actual que ali tiveram nascedouro estão na raiz de grande parte do labor de desmanche do que chamamos civilização ocidental, realizado sobretudo pelas correntes de esquerda e por sectores chamados progressistas, mesmo quando atacam o progresso. De facto, regressistas.

 

Rebentos peçonhentos

 

Com efeito, os fármacos dos laboratórios frankfurtianos constituíram ingredientes essenciais do arcabouço doutrinário de correntes de opinião que depois se espalharam mundo afora, diluindo-se com frequência para facilitar a difusão, sempre carregadas de toxinas mortíferas, moldando personalidades e instituições. No meio da investida generalizada, entre tais movimentos de desagregação, destaco aqui a contracultura, a revolta estudantil, principalmente a dos anos 60, os ataques ao capitalismo, a agenda LGBT. Ainda se poderia lembrar a rejeição à família monogâmica, à sociedade patriarcal, aos hábitos culturais prevalentes no Ocidente, as campanhas contra a chamada discriminação de género, favoráveis a comportamentos libertários, à família plural, ao poliamor. Tanta coisa mais haveria para colocar, pois o ataque é multifacético. Releva deixar dito, de passagem, por vezes tais correntes aproveitam-se de vícios reais, que devem ser combatidos, para alardear propostas corrosivas.

 

«Um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo»

 

Adiante. A Escola de Frankfurt é, para muitos, avantesma parecido com o fantasma brandido por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista de 1848: «um fantasma ronda a Europa, o fantasma do comunismo». O comunismo não foi apenas fantasma aterrorizador; foi e é flagelo pavoroso. A Escola de Frankfurt não é apenas fantasma aterrador; foi e é flagelo destrutor de enorme expansão, em especial no campo das concepções, dos costumes e da consciência revolucionária, minadouro de torrentes hoje intituladas em geral de «marxismo cultural». Anos atrás, era apodada comumente de marxismo ocidental. Algumas palavras, pingos históricos, para leitores que talvez dela nunca tenham conhecido senão fiapos ou até nada tenham escutado.

 

Uma comparação pode lançar luz. Os fenómenos da estratosfera, ainda que despercebidos da maioria, regulam o clima. A Escola de Frankfurt foi fenómeno sobretudo de estratosfera. Na troposfera, onde ocorre o turbilhão dos factos, o olhar desatento usualmente exclui a referida corrente de ideias da sua atenção. Contudo, a mirada percuciente perceberia as suas causas nas ocorrências da troposfera. Sob outra luz, pela sua doutrina e análises,  a Escola de Frankfurt não criou directamente os movimentos sociais revolucionários mais em evidência, mas forneceu o arcabouço filosófico e sociológico que fundamenta a sua acção.

 

Empurrando de lado o folhetinesco

 

Desconsidero, convém notar, para avaliar a importância do «fenómeno Frankfurt», o que tantas vezes em literatura folhetinesca se tacha com o rótulo vago de teorias da conspiração. No rumo oposto, considero a enorme lida doutrinária e de análise sociológica produzida pelas penas dos corifeus de tal escola — produção e oferta regidas pelas leis da vida intelectual — que encontraram eco ao longo dos anos sobretudo nas universidades, partidos políticos, sindicatos, igrejas, em dezenas de milhões de espíritos ávidos de justificação para a sua acção revolucionária — demanda e consumidores. Reitero, eles consumiram (colocaram em miúdos, esclareceram, adaptaram, ampliaram, divulgaram) o material intelectual que vinha dos formuladores doutrinários da escola de Frankfurt. Outro ponto a notar é que de há muito a acção das correntes revolucionárias, em boa medida, mesmo com doutrina ainda articulada insuficientemente, já era consonante com as doutrinas explicitadas e postas em evidência no século XX por frankfurtianos. O papel delas em parte foi tornar claro, fundamentado, notório e inquestionável o rumo que deveria ser tomado. Apenas, como exemplo, vários movimentos das correntes apodadas pelos marxistas de socialismo utópico já agiam amplamente de acordo com elas, ainda que não as pudessem formular.

 

Pedras no caminho

 

Em 1917, Lenine tomou o poder na Rússia e, inspirado no marxismo, iniciou a implantação do comunismo em área com mais de 22 milhões de quilómetros quadrados, onde viviam cerca de 170 milhões de pessoas. Fulgiam imensas a oportunidade e a esperança revolucionárias. Recordando a utopia colectivista da época, ali começava a era dos «amanhãs que cantam». Imaginava boa parte dos revolucionários, quem sabe a maioria, os amanhãs que cantam constituiriam propaganda irresistível para o socialismo. E assim, para amplos círculos de esquerda política e de sectores progressistas, vitórias esmagadoras pairavam iminentes.

 

Operariado reticente, prognósticos falsos

 

Contudo, já no começo da caminhada padeceram dificuldades enormes. Evoco algumas: com ares de perene se petrificava ditadura feroz na Rússia, caía o nível de vida do operariado russo e, mais próximo e mais lacerante, nos países ocidentais o operariado não votava maioritariamente no comunismo. Contingentes enormes da classe operária tinham-lhe repulsa. Em sentido contrário, os partidos burgueses, em geral, carreavam a maioria dos votos dos trabalhadores. A mais, revelavam-se falsos os prognósticos do marxismo. Repasso alguns: não havia revolta notável no proletariado, os salários subiam, a classe média aumentava, a propriedade disseminava-se. No horizonte, não aparecia no panorama o mítico sujeito revolucionário, o operariado cada vez mais explorado, cada vez mais revoltado. De outro modo, o marxismo revelava-se instrumento erróneo para análise da realidade. Era incoercível, nas hostes revolucionárias, aos milhões, começavam a grassar incompreensão e desconcerto, lavravam sintomas reveladores de desagregação, não raro o desânimo. Qual a razão da recusa maciça e das falhas da doutrina? Ou quais as razões? A Escola de Frankfurt buscou-as. E Gramsci também.

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* Péricles Capanema Ferreira e Melo é advogado e engenheiro civil (UFMG). Foi colaborador do mensário de cultura «Catolicismo» e da «Agência Boa Imprensa - ABIM».

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