No quente mês de Julho de 1789, enquanto a Revolução Francesa dava os seus primeiros passos, um nome começou a circular pelas ruas de Paris: o dos Dragões do príncipe de Lambesc, conhecidos pela sua coragem e pelo seu apego à monarquia. O seu comandante, Carlos Eugénio de Lorena, príncipe de Lambesc, nascido em 1751, era o chefe e o último representante da família dos duques de Guise, a Casa sempre devota à Igreja de Roma, que durante as guerras de religião do século XVI tinha liderado a Liga Católica contra os protestantes huguenotes. Lambesc via com lucidez o que muitos se recusavam a admitir: Paris não estava inquieta, estava à beira da revolta. Os seus Dragões – pertencentes ao regimento Royal-Allemand – eram soldados experientes, muitas vezes de origem alemã, mas leais ao rei. Cavaleiros armados com sabre e mosquete, treinados para combater tanto a cavalo como a pé, representavam uma das últimas forças realmente capazes de restabelecer a ordem no caos crescente.
A situação agravava-se. A 9 de Julho de 1789, a Assembleia Nacional francesa proclamou-se Constituinte. O rei, Luís XVI, demitiu o ministro Jacques Necker e reuniu tropas em torno da capital, mas hesitou. Soberano piedoso e manso, mas fraco, tinha dificuldade em conceber a ideia de ter inimigos e procurava apenas evitar o confronto aberto.
No dia 12 de Julho, ao meio-dia, Paris está mergulhada num caos imenso. Nos jardins das Tulherias e no Palais-Royal, a multidão aglomera-se, num turbilhão de gritos, injúrias e notícias falsas. Gritam-se slogans, agitam-se os bustos de Necker e do duque de Orléans, cujo palácio é o centro da revolta, enquanto os discursos incendiários de Camille Desmoulins transformam o descontentamento em fúria.
Os Dragões do príncipe de Lambesc, posicionados na praça Luís XV, à entrada das Tulherias, são alvejados com pedras, tijolos e cacos de garrafa. Os sabres brilham ao sol, mas o rei deu ordem para não reagir. Lambesc, após fazer os soldados executarem algumas manobras, faz avançar os seus homens, realiza uma carga de alívio, mais demonstrativa do que destrutiva, e retira-se para a margem esquerda do Sena.
Dois dias depois, a 14 de Julho, uma multidão de não mais de mil revoltosos, provenientes sobretudo do Faubourg Saint Antoine, assalta o Hôtel des Invalides e depois a Bastilha, identificada como o símbolo do poder monárquico. O governador Bernard-René de Launay, após negociar com os revoltosos, que lhe prometem segurança, rende-se, mas é massacrado. Um ajudante de cozinha decepou-lhe a cabeça, espetou-a no topo de uma pica e, seguido por uma multidão selvagem, levou-a de um lado para o outro até à noite. O que viria a ser chamado de «Terror» não começou com Robespierre, mas com a tomada da Bastilha.
A notícia da insurreição chega ao rei, que se encontra em Versalhes, durante a noite. Luís XV, o seu antecessor, escreve o historiador Pierre Gaxotte, «teria saltado para a sela a qualquer hora, teria entrado em Paris com todos os homens aptos para o combate e, ao raiar do dia, teria sido freneticamente aclamado por uma burguesia que, depois de tanto protestar, temia agora pela própria vida e pelos próprios bens. Teria mandado enforcar uma dúzia de assassinos nas janelas do Hôtel de Ville, recolocado uma guarnição na Bastilha e regressado a Versalhes para receber as declarações de obediência de uma Assembleia humilde e submissa» (A Revolução Francesa, trad. port. Edições A. Barion, 1949, p. 129).
O príncipe de Lambesc gostaria de carregar contra a multidão à frente dos seus Dragões e dispersá-la com os seus mosquetes, mas a ordem era para manter os sabres embainhados, porque o rei não queria que se derramasse sangue. O barão Pierre-Victor de Besenval, que na praça de Paris dispõe de três regimentos suíços e oitocentos cavaleiros, obedecendo também ele às ordens do soberano, não interveio. A 15 de Julho, Luís XVI anuncia a retirada das tropas; a 16, convoca Necker; a 17, entra em Paris, onde recebe do presidente da câmara Bailly a cocarda tricolor, novo símbolo da Revolução. É um gesto de conciliação, mas também o sinal da rendição à Revolução.
Uma semana depois, num paroxismo de fúria, a multidão linchou o Intendente Geral de Paris, Louis Bertier de Sauvigny, e o seu sogro, Joseph François Foulon, Controlador das Finanças. A Foulon, a plebe cortou a cabeça e exibiu-a num cortejo, empalada numa lança, enchendo-lhe a boca de feno, para o denunciar como cúmplice de uma conspiração antipopular. Em seguida, um grupo de revoltosos agarra Bertier de Sauvigny e obriga-o a marchar pelas ruas da cidade com a cabeça decepada do sogro à sua frente, cantando: «Beija o papá, beija o papá». Em frente ao Hotel de Ville, Bertier é morto: arrancam-lhe o coração do peito e atiram-no para os notáveis da Câmara Municipal. Depois, retomam a marcha, com a cabeça de Bertier ao lado da de Foulon.
O príncipe de Lambesc, forçado à inação, deixa a França e muda-se para Viena, onde, em 1791, será nomeado major-general do exército imperial. Na batalha de Tournai, em 22 de Maio de 1794, lança-se com os seus cavaleiros contra a infantaria francesa, colocando-a em fuga. Desde então, combate, distinguindo-se pela sua bravura, em todas as batalhas antijacobinas e antinapoleónicas da sua época, como general do exército austríaco. Nesta perspectiva, o príncipe de Lambesc pode ser definido, e foi, como um soldado da Contra-Revolução, tal como os seus antepassados da Lorena tinham sido soldados da Contra-Reforma católica sob São Pio V.
Com a restauração dos Bourbons na França, em 1815, foram devolvidas ao príncipe de Lambesc todas as suas dignidades dinásticas, tendo sido nomeado Marechal de França e Par de França hereditário. Mas, nessa altura, a sua pátria já era Viena, onde faleceu aos 74 anos, a 2 de Novembro de 1825. Não tendo tido filhos, com a sua morte extinguiu-se a gloriosa Casa de Guise.
A 21 de Janeiro de 1793, Luís XVI fora guilhotinado e o Papa Pio VI, na alocução Quare lacrymae de 17 de Junho de 1793, reconhecera no sacrifício do soberano «uma morte provocada pelo ódio à religião católica», atribuindo-lhe «a glória do martírio». Teria a tragédia sido evitada se os Dragões do príncipe de Lambesc tivessem recebido a ordem, que nunca foi dada, de enfrentar os revoltosos?
O certo é que, nas guerras e nas revoluções, perante um inimigo que nos ameaça, de entre todas as decisões, a mais difícil é a de se defender, porque não basta possuir a força, é necessária a vontade de a usar e, acima de tudo, a convicção de ter o direito de o fazer.
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Publicado em: Corrispondenza Romana
Direitos de publicação gentilmente cedidos pelo Autor
Tradução: Cristãos Atrevimentos