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1776: Estados Unidos, Europa e a perda das raízes

10 de Julho de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

1776: Estados Unidos, Europa e a perda das raízes

A celebração do 250º aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos, proclamada em Filadélfia a 4 de Julho de 1776, oferece oportunidade para algumas reflexões que vão além da simples comemoração histórica. Começo por uma afirmação de Luigi Marco Bassani, um dos mais conceituados estudiosos dos Estados Unidos e, sobretudo, um dos intelectuais mais independentes do politicamente correcto, tanto da esquerda como da direita (pois também existe um politicamente correcto de direita). No seu recente livro «Ocidente contra Ocidente. Elegia antes do seu triunfo» (Liberilibri, Macerata 2025), Bassani observa: «Toda a grande civilização desintegra-se quando deixa de acreditar nos seus mitos fundadores: os americanos sobrevivem de forma incrível, mesmo que, por vezes, pareçam relíquias de uma pequena república agrária de há dois séculos e meio. Os mitos fundadores da Europa foram definitivamente eliminados» (p. 56).

 

A imagem que hoje quase todos temos dos Estados Unidos é a de uma super-potência industrial, económica, política e militar, determinada a exercer a sua hegemonia sobre o mundo. Esquecemo-nos, porém, que a América, nascida da Declaração de Independência de 1776 e consolidada pela Constituição de 1787, era uma pequena república essencialmente agrícola, liderada por uma elite cuja principal ambição era garantir a independência conquistada em relação à Coroa britânica.

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Quando as treze colónias proclamaram a sua independência, os protagonistas da Revolução Americana não pensavam, de forma alguma, em inaugurar uma nova era da história universal. Eram proprietários de terras, juristas, comerciantes e militares chamados a enfrentar problemas muito concretos: libertar-se do controlo do Parlamento britânico, preservar as liberdades tradicionais das colónias e construir um sistema político suficientemente estável para evitar tanto a tirania como a anarquia.

 

Ao longo do século XIX, sobretudo durante e após a presidência de Andrew Jackson (1829-1837), surgiu, no entanto, uma nova classe dirigente que alterou profundamente a própria concepção do republicanismo americano. Foi então que tomou forma a ideia do «Destino Manifesto», ou seja, a convicção de que a experiência histórica dos Estados Unidos possuía um significado universal e de que o povo americano estava chamado a cumprir uma missão providencial.

 

É aqui que se torna necessário introduzir uma distinção fundamental. Uma coisa é a história dos Estados Unidos; outra coisa é o mito da América. A América histórica pertence à trajectória política de determinada nação. O mito americano, por sua vez, pertence à história das ideias. Nasce quando a experiência concreta dos Estados Unidos deixa de ser interpretada como um caso particular e é elevada a paradigma do destino de toda a civilização ocidental. A partir desse momento, a América deixa de ser simplesmente um Estado e torna-se um símbolo.


 No século XX, este processo acentua-se paralelamente à ascensão dos Estados Unidos como grande potência mundial. A América é identificada com o Ocidente, com a democracia liberal, com o capitalismo, com o progresso técnico, com a própria modernidade. Mas, precisamente nesse mesmo momento, surge o mito oposto: o anti-americano.

 

Na verdade, também o anti-americanismo confunde o símbolo com a realidade. Atribui aos Estados Unidos a responsabilidade por todos os desequilíbrios da modernidade, transformando-os no bode expiatório universal. O mito americano e o mito anti-americano parecem opostos, mas partilham o mesmo pressuposto: ambos identificam a América com um princípio universal da história.

 

Bassani observa que, nos Estados Unidos, não existe um fenómeno comparável ao anti-europeísmo, enquanto na Europa o anti-americanismo constitui, entretanto, uma componente estável da cultura contemporânea. Quem critica os Estados Unidos «nunca fala dos Estados Unidos reais, mas de um mito, de um fantasma, de um símbolo conveniente» (p. 218). O anti-americanismo europeu é um fenómeno psicológico antes mesmo de ser político. O desejo, muitas vezes inconsciente, é ver os Estados Unidos «pagar» o preço do seu sucesso histórico, quase como se o fracasso americano pudesse compensar o europeu. Daí o paradoxo, que Bassani resume bem: «Enquanto a América continua a questionar-se sobre o seu ocaso, a Europa já nem sequer tem forças para imaginar o seu próprio futuro» (p. 208). O anti-americanismo é a religião de quem já não tem fé no futuro porque arrancou os alicerces da sua própria história, ou seja -- poderíamos acrescentar -- as nossas raízes cristãs.

 

As dinâmicas demográficas confirmam este diagnóstico. Em 2024, na União Europeia, registaram-se cerca de 3,9 milhões de nascimentos contra 5,2 milhões de óbitos: um saldo natural negativo de mais de 1,3 milhões de pessoas, o pior da história da Europa em tempo de paz. Nos Estados Unidos, no mesmo período, os nascimentos ascenderam a cerca de 3,7 milhões e as mortes a 3,1 milhões; além disso, a população continua a crescer, em parte graças à imigração, enquanto a idade mediana permanece sensivelmente mais baixa do que a europeia.

 

Por trás destes números esconde-se uma realidade cultural mais profunda. A Europa já não tem mais filhos porque deixou de acreditar no futuro. Uma civilização que deixa de gerar não perde apenas habitantes: perde a confiança em si própria. Já não se percebe como uma história destinada a continuar, mas como uma trajectória já encaminhada para o declínio.

 

Segundo Bassani, a Europa só pode hoje sobreviver «agarrada como a hera» a uma América que continua a produzir energia, confiança e capacidade de imaginar o futuro (p. 25). De facto, «a América herdou o papel histórico que pertenceu à Europa do século XIX: ser a potência que produz tanto as mercadorias como as ideias dominantes» (p. 46) e «enquanto continuar a produzir ideias e riqueza, o Ocidente não estará acabado» (p. 56).

 

Como concluir? Embora os Estados Unidos estejam a atravessar uma grave crise cultural e moral, é inegável que o destino da Europa está intimamente ligado ao dos Estados Unidos. Desejar o colapso dos Estados Unidos significaria contribuir para o suicídio da Europa. Os Estados Unidos, pelo menos teoricamente, poderiam sobreviver sem a Europa. A Europa, por outro lado, dificilmente conseguiria sobreviver sem a América. O risco não seria o de uma autonomia estratégica recém-conquistada, mas sim o de uma fragmentação geopolítica progressiva: talvez uma Europa do nordeste cada vez mais a gravitar na órbita russo-asiática e uma Europa do sudoeste exposta a uma islamização crescente, chegando a formas de subordinação comparáveis à «dhimmitude».

 

Não se trata de um cenário inevitável, mas é uma possibilidade histórica que não pode ser descartada como fantasia. As civilizações não morrem apenas porque são derrotadas pelo exterior; muitas vezes dissolvem-se porque deixam de acreditar nas razões da sua própria existência. É talvez esta a lição mais profunda que o 250º aniversário da Declaração de Independência americana oferece hoje à Europa: não tanto celebrar a América, mas questionar-se sobre as razões da crise do Ocidente e sobre a perda das suas raízes.

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Publicado em: Roberto de Mattei

Tradução: Cristãos Atrevimentos

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