«Habetis mandatum apostolicum?» (Tendes mandato apostólico?). Com esta fórmula tradicional, que serve para verificar se os candidatos têm aprovação pontifícia, teve início, no dia 1 de Julho, em Écône, Suíça, o rito da sagração episcopal. Um sacerdote respondeu lendo um breve texto, sem valor canónico, redigido pelo padre Davide Pagliarani, superior da Fraternidade São Pio X: «As autoridades da Igreja manifestam uma atitude contrária à fé e agem contra a Santa Tradição e o Magistério constante da Igreja», pelo que «consideramos que é necessário proceder à sagração de bispos plenamente fiéis à Tradição» e que temos «o gravíssimo dever de transmitir a graça do episcopado a estes sacerdotes».
Ajoelhados perante o consagrante principal, Mons. Alfonso de Galarreta, os quatro novos bispos prestaram então, um a um, o seu juramento que, segundo o Pontifical Romano, começa com estas palavras: «Eu… a partir de agora e para sempre serei fiel e obediente ao Beato Apóstolo Pedro, à Santa Igreja Romana, ao Santo Padre Leão XIV e aos seus sucessores legitimamente designados…».
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A história repete-se, em circunstâncias diferentes. A 30 de Junho de 1988, em Écône, Mons. Marcel Lefebvre sagrou quatro bispos sem mandato pontifício. Trinta e oito anos depois, a 1 de Julho de 2026, dois dos quatro bispos então consagrados, Mons. Bernard Fellay e Mons. Alfonso de Galarreta, conferiram, por sua vez, o episcopado a quatro sacerdotes da Fraternidade Sacerdotal São Pio X: Pascal Schreiber (Suíça), Michael Goldade (Estados Unidos), Michel Poinsinet de Sivry (França) e Marc Hanappier (França), mais uma vez contra a vontade do Romano Pontífice.
Em véspera das sagrações, a 29 de Junho, o Papa Leão XIV dirigiu um apelo comovente ao Superior Geral da Fraternidade, o padre Davide Pagliarani, pedindo-lhe que suspendesse as sagrações. «Considerem atentamente o bem espiritual dos fiéis — escreveu o Pontífice — pois o acto cismático que tencionam praticar privar-vos-á da recepção lícita e, em certos casos, até mesmo válida, dos sacramentos que eles amam e procuram para a sua santificação». Na parte final da carta, o Papa afirma a disponibilidade da Santa Sé para «um caminho de diálogo e de entendimento que o Espírito Santo pode tornar possível e fecundo». «Rezo por vós, pois rasgar a Túnica inconsútil de Cristo é pecado de extrema gravidade. Que o Senhor ilumine as vossas consciências e desperte os vossos corações. Pela autoridade recebida de Cristo, com o coração entristecido, mas ainda cheio de esperança, sinto o dever de vos pedir que desistam do vosso propósito e confio estas intenções ao Coração Imaculado de Maria, Mãe do Bom Conselho».
Poucas horas depois, o padre Davide Pagliarani respondeu ao Papa Leão XIV com uma mensagem de tom respeitoso e igualmente sincero, na qual reitera que a Fraternidade São Pio X não tenciona separar-se da Igreja, mas sim servi-la numa situação que considera excepcional. O superior da Fraternidade não vê nas sagrações um gesto cismático, defendendo que estas visam, pelo contrário, «remendar a túnica de Cristo» rasgada pela crise da Igreja. O padre Pagliarani convida, portanto, o Papa a dedicar o tempo necessário ao discernimento, recordando que a Fraternidade já fora acusada de cisma em 1988, sem que isso impedisse o diálogo subsequente com a Santa Sé. A carta conclui com um apelo ao «coração paternal de pastor universal» de Leão XIV, na convicção de que «um dia todas as dificuldades entre a Santa Sé e a Fraternidade se resolverão».
O Papa não podia subtrair-se ao dever de chamar a atenção dos consagrantes para a gravidade do seu gesto. Mas era igualmente previsível que a Fraternidade São Pio X confirmasse uma decisão coerente com a escolha do seu Fundador. As sagrações de 2026 têm, de facto, as suas raízes nos acontecimentos de 1988 e só podem ser compreendidas reconstruindo a história que as precedeu.
Os gregos faziam uma distinção entre chronos e kairós. O chronos é o tempo quantitativo, a sucessão mensurável dos acontecimentos. O kairós, por sua vez, indica o tempo qualitativo: o momento decisivo, em que uma escolha altera o curso dos acontecimentos. Os Padres da Igreja e os teólogos medievais retomaram esta distinção, atribuindo-lhe um significado sobrenatural. O chronos é o tempo em que o homem vive e age; o kairós é o momento em que Deus interpela o homem e o coloca perante uma escolha que, consoante a sua aceitação ou rejeição da graça, está destinada a orientar o seu futuro.
Para Mons. Marcel Lefebvre, o seu próprio kairós chegou na noite de 5 para 6 de Maio de 1988, quando amadureceu a decisão que marcaria definitivamente a sua vida e a história da Fraternidade São Pio X: retirar a assinatura que tinha dado poucas horas antes no protocolo de entendimento com a Santa Sé e, mesmo assim, prosseguir com as sagrações episcopais sem mandato pontifício.
Para compreender essa decisão, que representou um ponto de viragem histórico, é necessário recuar aos meses anteriores. Em Novembro de 1987, João Paulo II enviara a Écône o cardeal Édouard Gagnon como Visitador Apostólico. A visita concluiu-se com um relatório de cerca de trinta folhas, entregue ao Papa em Janeiro de 1988, no qual o cardeal canadiano formulava um julgamento substancialmente positivo sobre a situação da Fraternidade e sugeria uma solução canónica capaz de favorecer a sua plena reconciliação com Roma.
Porém, Mons. Lefebvre tinha anunciado publicamente a sua intenção de sagrar pelo menos três bispos até 30 de Junho de 1988, mesmo na ausência de autorização pontifícia. João Paulo II não desistiu da via do diálogo. Foram organizados encontros entre representantes da Santa Sé e da Fraternidade nos dias 12 e 15 de Abril de 1988, nos quais participaram teólogos e canonistas de ambas as partes. O resultado favorável destas conversações tornou possível um novo encontro, a 5 de Maio, entre o cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Mons. Lefebvre.
O encontro concluiu-se com a assinatura de um protocolo de entendimento destinado a permanecer como um dos documentos mais importantes da história eclesiástica recente. Na primeira parte, de carácter doutrinário, Mons. Lefebvre, em seu nome e em nome da Fraternidade, declarava professar fidelidade à Igreja Católica e ao Romano Pontífice; aceitava a doutrina contida no nº 25 da Constituição Lumen Gentium sobre o Magistério eclesiástico e o assentimento que lhe é devido; comprometia-se a manter uma atitude de estudo e diálogo com a Santa Sé, evitando polémicas sobre os pontos controversos do Concílio Vaticano II e das reformas subsequentes; reconhecia a validade da Missa e dos sacramentos celebrados de acordo com os livros litúrgicos promulgados por Paulo VI e por João Paulo II; prometia, por fim, respeitar a disciplina geral da Igreja, sem prejuízo da disciplina canónica especial que seria reconhecida à Fraternidade.
Em troca, a Santa Sé oferecia uma solução canónica de grande alcance. A Fraternidade seria erigida à condição de Sociedade de Vida Apostólica de Direito Pontifício, dotada de autonomia significativa em relação aos bispos diocesanos no que dizia respeito ao culto, à formação e ao apostolado. Ser-lhe-ia reconhecido o direito de continuar a utilizar os livros litúrgicos de 1962. Seria constituída uma comissão mista, composta por representantes da Santa Sé e da Fraternidade, encarregada de resolver eventuais controvérsias. Estava ainda prevista a revogação da suspensio a divinis imposta a Mons. Lefebvre, a regularização dos actos eventualmente realizados sem as necessárias faculdades e o reconhecimento jurídico das casas e das obras da Fraternidade. Acima de tudo, o protocolo reconhecia a oportunidade de conferir o episcopado a um membro da Fraternidade, escolhido de uma lista de três candidatos proposta por Mons. Lefebvre. A questão do bispo, que constituía a principal preocupação do fundador, parecia, portanto, ter encontrado uma solução. O texto integral do acordo foi publicado nos dias seguintes pelo Boletim da Santa Sé, no jornal «Présent», e pela própria Fraternidade São Pio X.
Menos de vinte e quatro horas após a assinatura, tudo mudou. A 6 de Maio, Mons. Lefebvre dirigiu ao cardeal Ratzinger uma carta na qual declarava não considerar suficientes as garantias recebidas. Solicitava que a sagração do futuro bispo fosse marcada até 30 de Junho, acrescentando que, na ausência de uma resposta positiva, se consideraria moralmente obrigado a proceder ele próprio às sagrações episcopais.
O que aconteceu naquela noite de insónia entre quinta-feira, dia 5, e sexta-feira, dia 6 de Maio, que Mons. Lefebvre passou no priorado da Fraternidade de Albano, na Via Trilussa, juntamente com alguns dos seus colaboradores mais próximos? Certamente, foi a decisão de 6 de Maio de 1988 que marcou o ponto de não retorno. A partir desse momento, o diálogo transformou-se progressivamente numa corrida contra o tempo. A 24 de Maio, realizou-se um último encontro entre as partes, no qual o cardeal Ratzinger, em nome de João Paulo II, apresentou a possibilidade de proceder à nomeação episcopal até 15 de Agosto, subordinando-a ao restabelecimento de um clima de confiança e reconciliação com a Santa Sé, com base no protocolo já assinado. Mons. Lefebvre, numa carta de 2 de Junho, rejeitou essa proposta, insistindo na data de 30 de Junho e na nomeação de três bispos para garantir a vida e as actividades da Fraternidade. Numa última carta de 9 de Junho, João Paulo II implorou a Mons. Lefebvre que reflectisse sobre a gravidade das consequências do gesto que se preparava para realizar, convidando-o a regressar «com humildade à plena obediência ao Vigário de Cristo».
A 30 de Junho de 1988, assistido por Mons. António de Castro Mayer, Mons. Marcel Lefebvre consagrou quatro bispos sem mandato pontifício: Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta. João Paulo II reagiu com o motu proprio «Ecclesia Dei adflicta», de 2 de Julho, qualificando o acto como «cisma» e declarando que os consagrantes e os consagrados tinham incorrido na excomunhão latae sententiae prevista pelo Direito Canónico.
O chronos seguiu o seu curso: passaram, desde então, trinta e oito anos. Mas o kairós de 1988, o momento em que a Providência concentrou nas mãos de Mons. Lefebvre o peso de uma decisão histórica, continua a projectar a sua sombra sobre o presente. O dia 1 de Julho de 2026 representa um dos momentos mais significativos na história das relações entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X: não porque dê início a nova crise, mas porque torna evidente que a crise de 1988 nunca foi verdadeiramente superada. Esta entra agora numa fase diferente, na qual o problema já não é apenas a legitimidade de quatro sagrações episcopais, mas a existência de um problema doutrinário e a permanência no tempo de uma sucessão de bispos destinada a perpetuar-se independentemente da autoridade do Romano Pontífice.
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Publicado em: Corrispondenza Romana
Tradução: Cristãos Atrevimentos