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A consagração dos Estados Unidos ao Sagrado Coração

18 de Junho de 2026

Corrispondenza Romana

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A consagração dos Estados Unidos ao Sagrado Coração

Giovanni Surrato

 

A 11 de Junho de 2026, os bispos católicos dos Estados Unidos realizaram um gesto destinado a deixar uma marca na história religiosa do país: reunidos em Orlando, na Flórida, por ocasião do 250º aniversário da Declaração de Independência, que se comemora a 4 de Julho, consagraram os Estados Unidos da América ao Sacratíssimo Coração de Jesus. Durante uma celebração litúrgica solene, os bispos confiaram a nação ao amor misericordioso de Cristo, pedindo para o povo americano o dom da justiça e da paz. Pela primeira vez como presidente da Conferência, o arcebispo Paul S. Coakley dirigiu o seu discurso aos irmãos bispos. Interveio também o arcebispo Gabriele Caccia, núncio apostólico nos Estados Unidos, nomeado por Leão XIV no início do ano.

 

A iniciativa, promovida pela Conferência Episcopal dos Estados Unidos, representa a primeira consagração nacional oficial do país ao Sagrado Coração, mas insere-se numa tradição plurissecular que viu numerosas nações confiarem-se ao Coração de Jesus em momentos decisivos da sua história.

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            Para compreender o significado deste gesto, é necessário recordar que a devoção ao Sagrado Coração tem as suas raízes nas revelações recebidas por Santa Margarida Maria Alacoque no convento de Paray-le-Monial, entre 1673 e 1675. Através da freira visitandina, Cristo manifestou o desejo de que o seu Coração fosse venerado como símbolo do amor infinito de Deus pelos homens e pediu, em particular, que os governantes e as nações reconhecessem a Sua soberania. Desde então, a devoção espalhou-se rapidamente por toda a Igreja, apoiada por numerosos pontífices.

 

A primeira nação a consagrar-se oficialmente ao Sagrado Coração foi o Equador, em 1874. O presidente Gabriel García Moreno, um dos mais eminentes estadistas católicos do século XIX, quis que o seu país se colocasse sob a protecção do Sagrado Coração de Jesus. O acto teve profundo impacto internacional e tornou-se modelo para outras nações católicas. Não é por acaso que o próprio Equador tenha sido posteriormente consagrado também ao Imaculado Coração de Maria e que a sua Constituição tenha reconhecido explicitamente o papel da religião católica na vida pública.

 

Nos anos seguintes, outros Estados da América Latina seguiram o exemplo. A Colômbia consagrou-se ao Sagrado Coração em 1902, no final da devastadora Guerra dos Mil Dias, e o culto ao Sagrado Coração tornou-se, durante décadas, um dos elementos característicos da identidade nacional colombiana. Actos semelhantes de consagração foram realizados na Costa Rica, em El Salvador e noutros países do continente.

 

Também a Europa testemunhou importantes consagrações nacionais. Em Espanha, a devoção ao Sagrado Coração atingiu o seu auge em 1919, quando o rei Afonso XIII a consagrou oficialmente ao Coração de Jesus junto ao monumento do Cerro de los Ángeles, perto de Madrid. Esse acto assumiu um forte valor simbólico e foi considerado por muitos católicos como o reconhecimento público da realeza social de Cristo. Durante a Guerra Civil Espanhola, o monumento foi profanado e destruído, mas foi posteriormente reconstruído, tornando-se um símbolo da resistência religiosa do povo espanhol ao anarco-comunismo.

 

A consagração de Portugal foi também particularmente significativa. Em 1931, o episcopado português confiou a nação ao Sagrado Coração de Jesus, num período de fortes tensões políticas e sociais. Os bispos portugueses atribuíram a essa consagração a protecção do país durante a tragédia da Guerra Civil Espanhola e da Segunda Guerra Mundial, que não afectaram directamente o território nacional.

 

Um lugar especial na história das consagrações cabe também à Polónia. Depois de ter reconquistado a independência em 1918, o país renovou várias vezes a sua entrega ao Sagrado Coração, vendo nele uma fonte de força espiritual contra as ameaças provenientes tanto do nazismo como do comunismo.

 

A nível universal, o momento mais importante foi, contudo, em 1899, quando o Papa Leão XIII consagrou toda a humanidade ao Sagrado Coração de Jesus. O acto foi preparado pela encíclica Annum Sacrum e foi definido pelo Pontífice como «o maior acto do meu pontificado». Desde então, a consagração pessoal, familiar e nacional ao Sagrado Coração de Jesus tornou-se uma das expressões mais difundidas da espiritualidade católica.

 

Nesta perspectiva, a consagração dos Estados Unidos assume um significado que ultrapassa as fronteiras do país, pois atesta que a devoção ao Sagrado Coração continua a exercer uma força de atracção mesmo numa sociedade pluralista e secularizada.

 

A importância do evento foi ainda mais realçada por um facto sem precedentes na história recente dos Estados Unidos. Numa mensagem oficial divulgada pela Casa Branca, o presidente Donald Trump manifestou o seu apoio à iniciativa dos bispos católicos, declarando que se unia espiritualmente à consagração juntamente com a Primeira-Dama. Trump definiu a cerimónia como «um momento marcante da nossa história nacional» e «uma comovente lembrança de que a América sempre foi guiada pela mão amorosa de Deus». Referindo-se às raízes cristãs da nação, o presidente recordou o papel desempenhado pelos missionários, colonos e católicos que contribuíram para a fundação dos Estados Unidos, citando em particular John Carroll, o primeiro bispo do país, e Charles Carroll, o único católico entre os signatários da Declaração de Independência. Além disso, evocou a colaboração entre João Paulo II e Ronald Reagan na luta contra o comunismo ateu, apresentando a consagração como um sinal de continuidade com a tradição religiosa americana. A mensagem terminou com o desejo de que os Estados Unidos possam continuar a ser, nos próximos duzentos e cinquenta anos, «uma terra de fé, um país de milagres e uma luz para todas as nações».

 

Trata-se provavelmente da primeira vez que um presidente em exercício intervém oficialmente para saudar e apoiar uma consagração nacional ao Sagrado Coração promovida pelo episcopado católico. No entanto, não faltaram algumas reservas por parte de círculos católicos tradicionais. Estes observaram que a fórmula adoptada pelo episcopado americano difere das grandes consagrações ao Sagrado Coração da era moderna, a começar pela de 1899, com a qual Leão XIII consagrou toda a humanidade. Enquanto o texto de Leão XIII utilizava repetidamente o verbo «consagrar», a oração americana de 2026 recorre a uma linguagem mais simples, centrada no pedido de bênção e protecção para a nação. Tal constituiria um enfraquecimento do significado tradicional do acto, que, no entanto, os bispos americanos apresentaram oficialmente como «Consagração dos Estados Unidos da América ao Sacratíssimo Coração de Jesus».

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Fonte: Corrispondenza Romana

Tradução: Cristãos Atrevimentos

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