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O Castelo de Beaufort

15 de Junho de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

O Castelo de Beaufort

Poucos conheciam o nome do castelo de Beaufort, no sul do Líbano, antes de o exército do Estado de Israel anunciar a sua conquista no passado dia 31 de Maio. Foi assim que a opinião pública mundial tomou conhecimento da existência de uma fortaleza das Cruzadas que, novecentos anos após a sua construção, continua a representar um importante baluarte estratégico para a guerra em curso no Médio Oriente.


            O castelo de Beaufort foi construído em 1139 por Fulco V de Anjou, rei cruzado de Jerusalém, sobre uma crista rochosa a 700 metros de altitude, para controlar as vias de comunicação entre a costa fenícia, a Galileia e o interior da Síria. Domina o Vale da Bekaa, entre o Líbano e a Síria, que constituía uma fronteira entre o mundo franco e o mundo muçulmano. A sobrevivência deste castelo ao longo dos séculos recorda-nos, antes de mais, que os territórios hoje disputados entre Israel e o Hezbollah foram terras cristãs. Nestas terras viveu e derramou o seu sangue Nosso Senhor Jesus Cristo e daí se difundiu pelo mundo a Igreja Católica.


            Santa Helena, mãe do imperador Constantino, encontrou ali, entre 326 e 328, as relíquias mais preciosas da Paixão e, por sua iniciativa, surgiram a Basílica do Santo Sepulcro em Jerusalém e a Basílica da Natividade em Belém, que transformaram a Terra Santa num dos principais destinos de peregrinação da Cristandade, contribuindo para fixar na memória religiosa a geografia dos locais evangélicos.

 

Depois que os seguidores de Maomé conquistaram Jerusalém em 638, os santuários cristãos continuaram a existir, mas em condições cada vez mais precárias, até que, no século XI, os turcos seljúcidas decretaram a sua destruição, após invadirem a Palestina. As Cruzadas, nascidas para libertar os Lugares Santos ocupados pelos muçulmanos, foram a página mais brilhante da Idade Média cristã. Após a reconquista da Cidade Santa, em 1099, nasceram o Reino de Jerusalém e uma série de Estados cruzados sob a sua soberania. Este vasto complexo territorial compreendia o Condado de Edessa, correspondente a partes do actual sudeste da Turquia, do norte da Síria e do oeste do Iraque; o Principado de Antioquia, que se estendia pela actual região turca de Hatay e pelo noroeste da Síria; o Condado de Trípoli, que ocupava grande parte da costa do actual Líbano; e o Reino de Jerusalém, que incluía a maior parte do actual Israel, os territórios palestinianos da Cisjordânia, a faixa costeira de Gaza e amplas zonas do actual oeste e sul da Jordânia.


            No seu conjunto, os Estados cruzados estendiam-se desde o Mediterrâneo até ao curso superior do Eufrates e desde os territórios da actual Turquia meridional até ao Golfo de Aqaba, no Mar Vermelho.


            O castelo de Beaufort recorda-nos não só a existência do Reino Cruzado de Jerusalém, mas também o facto de que este território se formou na sequência de uma «guerra santa» promovida pelo Beato Papa Urbano II e pelos seus sucessores, que foram trinta e quatro, entre a conquista de Jerusalém em 1099 e a queda de São João de Acre em 1291, data convencionalmente considerada como o fim da epopeia das Cruzadas.


            Esta epopeia testemunhou vitórias cristãs extraordinárias, mas também graves reveses. Quando surgiu no horizonte o inimigo mais temível que os cruzados alguma vez tinham enfrentado naqueles anos – Saladino, sultão do Egipto e da Síria – os líderes cruzados deixaram-se envolver em lutas internas, em intrigas e vãs ambições, sofrendo 1187 a desastrosa derrota de Hattin.


            Em Hattin, junto ao lago de Tiberíades, os cruzados caíram na armadilha habilmente preparada por Saladino. Para obrigar o exército do Reino de Jerusalém a abandonar a forte posição de Sephoria, rica em água e favorável à defesa, Saladino atacou Tiberíades. O exército cristão pôs-se então em marcha sob o calor do Verão, enquanto a cavalaria ligeira muçulmana o atormentava incessantemente com incursões e manobras de perturbação, impedindo-o de chegar às nascentes e de se abastecer de água. Quando os cruzados chegaram exaustos a Hattin, a batalha já estava em grande parte perdida e o seu exército foi quase completamente aniquilado. Em 1191, caiu também o castelo de Beaufort, último e prestigiado posto avançado do sistema defensivo cruzado em direcção ao interior da Síria.

 

A causa mais profunda da derrota dos cruzados não foi apenas de natureza militar. Residia na perda daquela pureza de intenções e daquela primavera espiritual que estiveram na origem da sua epopeia. A tradição cristã ensina que Deus não abandona aqueles que confiam n’Ele, mas que muitas vezes permite derrotas quando os homens se afastam da sua vocação e confiam exclusivamente nas suas próprias forças. Por isso, o bispo Guilherme de Tiro, testemunha e cronista das Cruzadas, escreveu naquela época palavras que nos fazem reflectir: «Entre nós faltaram, segundo a lamentação do profeta, “o conselho ao sábio, a instrução ao sacerdote, a visão ao profeta” (Jeremias, 18, 18b); agora, entre nós, o sacerdote está tal como o povo (Oséias, 4, 9), de modo que podemos aplicar a nós as palavras do profeta: “a cabeça está toda ferida, o coração todo destruído; da planta dos pés até à cabeça não há nada que esteja são em nós” (Isaías, 1, 5b-6). Chegámos agora a tempos em que não somos capazes de tolerar nem os nossos vícios nem os seus remédios; por isso, devido aos nossos pecados, os inimigos tornaram-se mais fortes, e nós, que tantas vezes tínhamos o hábito de trazer com glória a palma do triunfo sobre os inimigos, agora, privados da graça divina, trazemos em quase todos os combates o pior resultado».

 

Mas a história também nos transmite outra lição. Quem quer vencer uma guerra deve saber escolher o terreno em que lutar, não se deixar arrastar pelo inimigo para local traiçoeiro e não se submeter às regras por ele estabelecidas. Este princípio aplica-se não só às batalhas militares, mas também aos confrontos religiosos, culturais e morais que marcam todas as épocas da história da humanidade. Muitas vezes, a vitória pertence a quem mantém a lucidez necessária para não abandonar as suas posições essenciais e para não deixar que o adversário lhe imponha a agenda.


            Nesta perspectiva, o castelo de Beaufort torna-se o símbolo daquele «castelo interior» que cada um é chamado a guardar dentro de si. Representa a fortaleza da alma, a fidelidade aos próprios princípios, a vigilância sobre as próprias convicções e sobre a própria vida espiritual. Defender este castelo significa exercer a prudência, perseverar no bem e não ceder às pressões externas ou às fraquezas interiores. Confiando, por fim, à Divina Providência o resultado da batalha, o homem faz tudo o que está ao seu alcance e encontra na fé a força para resistir e vencer.

Contribua doando qualquer valor Quero Doar Publicado em: Roberto de Mattei

Tradução: Cristãos Atrevimentos

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