Falando uma vez, há anos, com um líder comunista chileno, dizia-me este que na Bolívia o comunismo nunca conseguiria fixar raízes profundas e que, mesmo que chegasse ao poder por meio de alguma jogada política, não seria capaz de operar grandes mudanças no país. Ao perguntar-lhe por que motivo lamentava isto, a sua resposta foi bem profunda: os índios bolivianos – explicou ele – não têm inveja, não cobiçam a propriedade alheia e limitam-se a sonhar com o desejo de serem ricos sem o ódio da «luta de classes».
Ouvindo amigos uruguaios comentar como o seu país está irreconhecível, falei-lhes da observação feita por aquele comunista chileno e logo eles rapidamente reconheceram que no Uruguai se instalou a «cultura» da inveja, do desejo de prosperar à custa dos outros, do esquecimento da ordem tranquila, activa e cordata.
Contribua doando qualquer valor Quero Doar Quem conheceu o país facilmente compreendia por que o Uruguai era chamado de «Suíça da América», não pela sua geografia, uma vez que o seu território é praticamente todo plano, mas pela sua estabilidade económica, ausência de guerras civis, vida tranquila e boa ordem pública, sem assaltos ou crimes violentos. Passeando por Montevideo, recordo a sensação de calma e segurança que tinham especialmente aqueles que vinham das perigosas cidades brasileiras. Chamava particularmente a atenção o cuidado que tinham os cidadãos em arranjar os seus carros antigos, não porque lhes faltasse dinheiro para comprar novos, mas por causa de uma espécie de apego saudosista ao passado tranquilo. As pessoas de classes mais abastadas falavam naturalmente com pessoas de condição mais modesta, fosse nos parques enquanto fumavam um cigarro, fosse num posto de combustível, no supermercado ou a tomar um chá mate, muito comum na boa tradição uruguaia.
Hoje, porém, o Uruguai tornou-se um país perigoso, com três vezes mais crimes de assassinato do que na vizinha Argentina ou duas vezes mais do que no Chile. Há tiroteios nas ruas, aparecem corpos decapitados, há bairros dominados por narcotraficantes ou por delinquentes, a tal ponto que a polícia já não entra neles. Pior ainda, há bairros onde os próprios vizinhos são apoiantes dos criminosos contra a polícia.
Como foi possível uma transformação tão radical? O marxista italiano António Gramsci explica-o assim: as classes dominantes de um país não só usam da força para controlá-lo, mas recorrem também à criação de normas culturais, modos de ser e valores comuns. Se estes padrões forem mudados para o seu oposto, ou se pelo menos se conseguir questionar as suas bases filosóficas, religiosas e sociais, toda a mentalidade do país se transforma. Foi exactamente o que fizeram os socialistas nos três mandatos que tiveram, de 2005 a 2019, principalmente no mandato do Presidente José “Pepe” Mujica.
Seria uma longa história referir todas as mudanças culturais, mas uma das mais importantes foi a lei que aprovou as uniões homossexuais, assinada por Mujica em Maio de 2013, e com a qual se derrubou a barreira moral que permitiu a aprovação de outra lei muito mais radical, ou seja, a que aprovou, em Dezembro de 2013, a distribuição e venda de marijuana. Ficou assim liberalizado e normalizado o coméricio de uma droga que movimenta muitíssimo dinheiro, como é bem sabido, e que cria viciados sem conta. A legalização deste comércio criou também uma nova classe que enriqueceu rápida e facilmente e que se gaba de ostentar o seu poder económico. Claro que isto suscita em muitos a inveja e o desejo de arrebatar o mercado a esses «novos ricos», dando origem aos inevitáveis conflitos armados entre as máfias dedicadas ao narcotráfico e «normalizando» todo o tipo de criminalidade violenta e sanguinária. Em poucos anos, o Uruguai entrou numa espiral de violência que destruiu os velhos hábitos do bom convívio tradicional. Acresce que o governo criou uma procuradoria para controlar a Justiça, abreviando as penas e fazendo acordos absurdos com os criminosos. Quando estes reconheciam a sua culpa, a pena era-lhes aliviada, o que só contribuiu para aumentar a violência e o roubo. Vale a pena lembrar que, para os padrões da «guerra cultural» marxista, os ladrões furtam porque são vítimas da «injustiça social».
E como «abismo atrai abismo» – abyssus abyssum invocat – o Uruguai tornou-se também o primeiro país da América Latina a aprovar a lei da Eutanásia, em Outubro de 2025. Num país onde o assassinato é crime corrente, também agora a «cultura da morte» ganhou estatuto de normalidade.
A velocidade com que se processaram estas mudanças chocou muitos uruguaios, levando-os a eleger um governo mais conservador, mas depois de um intervalo de cinco anos, de 2020 a 2025, voltaram a escolher uma governação socialista, com um novo presidente apresentado como administrador pacato, para tranquilizar as pessoas e dar-lhes tempo de se adaptarem às mudanças… até que se possam retomar as medidas que destruirão o país.