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Trump, Putin e a estratégia chinesa

20 de Maio de 2026

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

Trump, Putin e a estratégia chinesa

A viagem de Donald Trump a Pequim teve um significado bem diferente daquela que foi realizada em 1972 pelo Presidente Richard Nixon, acompanhado pelo seu Conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger. Nixon perseguia então um objectivo estratégico preciso: tentar separar a China maoísta da União Soviética que, nessa altura, constituía o grande adversário dos Estados Unidos. Esta estratégia, a longo prazo, revelou-se, no entanto, um fracasso. A abertura diplomática e comercial à República Popular da China lançou, de facto, as bases para o seu subsequente desenvolvimento económico, industrial e tecnológico. Os Estados Unidos e as grandes economias ocidentais consideraram durante muito tempo este processo como vantajoso para todos. Por um lado, as empresas ocidentais podiam beneficiar de mão-de-obra barata e de um enorme mercado; por outro, difundiu-se a convicção de que a integração económica transformaria gradualmente a China, conduzindo-a a formas de liberalização política. A previsão revelou-se um grave erro de avaliação. O Partido Comunista Chinês nunca renunciou ao monopólio do poder, nem aos princípios fundamentais da sua ideologia. Pelo contrário, utilizou a abertura económica como instrumento para fortalecer o Estado, modernizar o sistema produtivo e construir uma potência nacional capaz de competir com o Ocidente. Em poucas décadas, a China alcançou uma posição comparável à dos Estados Unidos como grande potência global, nos planos político, económico, tecnológico e militar.


            A cimeira de 13 a 15 de Maio de 2026 foi, portanto, um encontro entre iguais e o objectivo de Donald Trump consistiu em iniciar negociações para conter a expansão do poder chinês. A 19 de Maio, uma semana após a visita de Trump, Vladimir Putin chegou a Pequim para reforçar as relações com Xi Jinping, que a 23 de Março de 2023 tinha declarado: «Há mudanças que não se viam há cem anos e somos nós que as lideramos em conjunto». A chegada de Putin marcou o nono encontro cara a cara com Xi desde o início da guerra na Ucrânia, em Fevereiro de 2022. Mas enquanto o presidente da Federação Russa reivindica a Ucrânia, Xi Jinping quer reapropriar-se da Sibéria, que até 1860 pertencia, como parte da Manchúria, ao Império Celestial. Nas últimas décadas, a Sibéria tem assistido, a par do declínio demográfico russo, a uma impressionante imigração chinesa.

 

            Os chineses são mais trabalhadores, gentis e longevos do que os russos que vivem nestes territórios e, ao chegarem à Sibéria, casam-se e têm filhos, iniciando a mesma política de substituição que o Islão tem implementado na Europa. A Rússia está agora submetida à China, que se apresenta como a maior potência comunista da história, muito mais forte e estruturada do que a União Soviética durante a Guerra Fria. Hoje, se o pós-estalinista Putin insere o comunismo na tradição imperial russa, o neomaoísta Xi enraíza-o na cultura nacional confucionista. Mas, ao contrário da URSS, que possuía sobretudo uma força militar e ideológica, a China une à força política do Partido Comunista também um poder económico, industrial e tecnológico.


            Durante o encontro com Trump, Xi Jinping evocou a chamada «Armadilha de Tucídides». A expressão, cunhada por Graham Allison, professor da Universidade de Harvard, remete para o historiador grego Tucídides que, ao narrar a Guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta, observou como o conflito se tornou inevitável quando a potência emergente ateniense ameaçou o domínio espartano. Segundo o politólogo americano, nos últimos cinco séculos, é possível identificar dezasseis casos históricos em que uma potência emergente tentou substituir uma potência dominante; em doze casos, a rivalidade culminou numa guerra devastadora. Xi Jinping, referindo-se a esta teoria, afirmou que a China já não aceita uma posição subordinada na ordem internacional e, caso a política de cooperação fracasse, está disposta a ir para a guerra.


            Xi Jinping lançou, assim, um desafio aberto aos Estados Unidos. No Ocidente, poucos parecem compreender o carácter ideológico deste desafio. No entanto, na China, é obrigatório estudar Marx, Lenin, Mao e o próprio «Pensamento de Xi Jinping», com o objectivo de reforçar o «sentido de identidade nacional» e a lealdade ao Partido Comunista Chinês. De acordo com uma investigação do jornal The Guardian, os novos programas escolares de Hong Kong representam mais um passo no sentido da integração da ex-colónia britânica no universo ideológico de Pequim. Isto mostra também qual poderá ser o destino de Taiwan caso perca a sua independência, entrando na órbita política da China comunista.

 

A política de Xi Jinping é, além disso, acompanhada pelo culto da sua personalidade, tal como já aconteceu com Mao e Estaline. Um artigo da Tempi descreve como, em algumas regiões rurais da China, as imagens sagradas cristãs foram substituídas por retratos do líder chinês. A lealdade ao Partido é apresentada como uma espécie de «religião civil» obrigatória, enquanto continuam as perseguições contra cristãos, dissidentes e minorias religiosas no âmbito da política de «sinização» das religiões pretendida por Xi. As purgas internas impostas pelo ditador chinês em 2025 foram das mais agressivas da história da República Popular e fazem parte de uma vasta operação de consolidação pessoal do seu poder.

 

O desafio chinês não se dirige apenas aos Estados Unidos, mas a todo o Ocidente. A desestabilização psicológica causada pela pandemia da Covid-19, que teve início em Wuhan, representou um sucesso espectacular da guerra híbrida de Pequim. A estratégia actual consiste em aprofundar o fosso entre a Europa e os Estados Unidos, apresentando a nação americana aos europeus como um concentrado de erros e maldades. A China continua a expandir a sua influência geopolítica, alimentando o antiamericanismo e reforçando relações estratégicas com os piores inimigos do Ocidente. Como observou Micol Flamini no Il Foglio de 16 e 17 de Maio, a China, a Rússia e o Irão são hoje indispensáveis uns aos outros: Pequim representa a potência económica e industrial; Moscovo contribui com a experiência militar no terreno; Teerão oferece os seus recursos energéticos e a sua posição estratégica regional.

 

O ex-secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo escreveu no dia 14 de Maio no X: «Conheci algumas das piores pessoas do mundo, mas Xi Jinping é, sem dúvida, a pessoa mais fria e implacável que já conheci. Não devemos iludir-nos quanto às suas intenções maléficas em relação aos Estados Unidos ou a qualquer potência que o desafie na cena mundial» (Epoch Times Itália). Na Europa, no entanto, enquanto Donald Trump é frequentemente descrito como um líder louco, ou pelo menos imprevisível, Xi Jinping continua a ser considerado um interlocutor pragmático e fiável. O slogan lançado em 2009 por Romano Prodi, «Confiem na China», foi adoptado pelo actual presidente do Movimento Cinco Estrelas, Giuseppe Conte, e pelo secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, ambos discípulos daquela «Escola de Villa Nazareth», que formou o artífice da Ostpolitik, Agostino Casaroli.


            Xi Jinping talvez conheça Tucídides de segunda mão, mas certamente não ignora a frase atribuída a Lenine: «Os capitalistas vender-nos-ão a corda com que os enforcaremos», e provavelmente também a análise de Antonio Gramsci, segundo a qual o catolicismo modernista «faz o que o comunismo não conseguiria: amalgama, ordena, vivifica e suicida-se». Este parece ser o itinerário inexorável do nosso tempo.

 

Publicado em: Corrispondenza Romana

Tradução: Cristãos Atrevimentos

Direitos de publicação gentilmente cedidos pelo Autor

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