Para muitas pessoas a guerra da Ucrânia continua a ser um pouco mais do mesmo: Uma guerra de trincheiras onde se avança pouco e onde há drones a voar continuamente por cima da cabeça dos soldados. E a verdade é que assim se poderia resumi-la se não houvesse um factor que está a modificar substancialmente o conflito: é a utilização dos drones e a evolução que tiveram desde o início da guerra. A diferença dos primeiros para os mais recentes é mais ou menos como a de um carro dos anos 1950 para um Ferrari moderno. E nesse avanço exponencial, não há dúvida que a Ucrânia leva a medalha de ouro.
Vejamos um pouco mais detalhadamente o que se passa nessa guerra.
Contribua doando qualquer valor Quero Doar Há quatro anos a Rússia tentou ganhar por meio de uma acção rápida, de ataques maciços com blindados e aviação. As suas forças armadas, supostamente as segundas melhores do mundo, revelaram-se afinal um tigre de papel. Por exemplo, pelos pilotos russos capturados, constatou-se que usavam sistemas de navegação por GPS, como os que utiliza qualquer motorista de táxi. E ainda por cima funcionavam mal, o que por várias vezes levou pilotos russos a bombardear posições da sua própria tropa.
Quanto aos carros de combate e outros blindados, foram destruídos aos milhares, muitos deles em explosões dignas de filme. O «famoso» Armata T-14, que os russos proclamavam como sendo o melhor do mundo, esse então nem sequer apareceu no teatro de operações sob a alegação de ser «demasiado caro». Sabe-se, no entanto, que tem enormes defeitos.
Quando se tornou evidente que a guerra de manobras não resolveria o conflito, a Rússia abandonou muitos territórios e centrou-se na conquista do sudoeste da Ucrânia – a região do Donbas – onde se estabeleceu então uma guerra de trincheiras.
Quando se fala em guerra de trincheiras, muitos imaginam as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, que se estendiam por longas linhas escavadas e cheias de soldados. Na Ucrânia não é assim. As distâncias são enormes e não há soldados suficientes para ocupá-las. Aliás também quase deixaram de ser necessários porque o aparecimento dos drones ajudou a controlar o terreno e a preparar ataques. As trincheiras, portanto, são mais propriamente linhas de defesa com posições fortificadas que ao longo delas se distribuem e abrigam soldados.
Nesta segunda etapa da guerra começou uma corrida tecnológica de novos drones, de sistemas para neutralizar os ataques dos mísseis e drones inimigos, assim como de sistemas de combate e transporte autónomos, dirigidos à distância.
Para se avaliar a importância dos drones, basta dizer que entre 80 a 90% das baixas russas, entre homens e equipamentos, foi alcançada por drones. E foi aqui que surgiu a terceira fase da guerra, que agora está a começar e em que a Ucrânia tem fortes probabilidades de ganhar por ter simplesmente confiado na livre iniciativa e abandonado o vício socialista de centralizar e tudo querer controlar, tal como ele ainda prevalece na Rússia.
Explico-me: tanto do lado russo como do lado ucraniano havia oligarcas que dominavam sectores da economia. Eram pessoas riquíssimas, muitas delas verdadeiros patriotas, embora outras apenas oportunistas gananciosos. Na Ucrânia, muitos desses oligarcas decidiram investir as suas fortunas no desenvolvimento de drones. Contrataram especialistas nacionais e ocidentais, pagaram-lhes muito bem e montaram linhas de produção maciça, tudo isso à «velocidade» de boa empresa privada, sem sujeição aos entraves burocráticos estatais que só servem para atrasar projectos. O resultado foi um espectacular surto de inovação e uma produção maciça.
Os russos também começaram assim, mas a tradicional corrupção soviética rapidamente entrou em cena com a nomeação de «directores de produção» para centralizar e controlar, com salários pagos pelo governo (e mais algum dinheiro repartido entre «amigos», é claro). O mesmo aconteceu às escolas de pilotos e às fábricas de produção de drones que ficaram subjugadas à burocracia estatal.
A Ucrânia, naturalmente, começou a produzir drones muito mais rápidos, com maior autonomia e imunidade à interferência. Certos modelos mais recentes alcançam velocidades na ordem dos 300 km/h, são provavelmente dotados de inteligência artificial, não emitem ruído e a sua produção triplicou. A novidade espalhou-se rapidamente nas redes sociais russas, mas o governo logo reagiu à boa maneira soviética: simplesmente cancelou a internet.
Foi uma péssima ideia, porque o corte desse meio de comunicação – eficaz, acessível e barato – tem causado danos fatais às operações militares e logísticas, provocando nos russos baixas pesadíssimas (duas vezes mais do que nos ucranianos), avanços insignificantes no terreno com elevadíssimo custo de vidas e privação de meios mecanizados. Os ucranianos, por sua vez, dominam cada vez melhor os sistemas de armas não tripuladas, o que lhes permite desferir pesados ataques aos russos sem arriscar vidas humanas, assim como levar água, comida e munições aos combatentes das linhas da frente.
Enquanto a Rússia usa parte dos seus mísseis para matar civis, os ucranianos concentram-se em objectivos estratégicos como refinarias, portos marítimos ou navios petroleiros, privando a Rússia do seu mais valioso meio de financiar a guerra.
Qual será o resultado desta terceira fase da guerra? Terá o governo russo que recorrer a uma mobilização maciça e extremamente impopular? Ou levarão a sua loucura ao ponto de usar armas nucleares? A Rússia está num dilema tremendo porque não consegue vencer a guerra e o seu orgulho não consegue aceitar a derrota.