Eça de Queirós, o conhecido escritor português, criou no seu romance «O primo Basílio» uma personagem literária -- o Conselheiro Acácio -- que era o típico burocrata medíocre português que dizia coisas óbvias de forma pomposa. Uma das coisas que ele poderia dizer hoje é que o termómetro, ao registar temperaturas diferentes em duas pessoas, indica que uma delas pode ter febre e, portanto, estar doente.
Na saúde das nações também há um termómetro que mede as as leis pelas quais elas se regem. Assim, por exemplo, se uma lei protege os ladrões e não a propriedade privada, ou se permite o assassinato de um inocente e iliba o criminoso, isso indica que toda a sociedade perdeu ou abandonou uma série de valores e, como diria o Conselheiro Acacio, «está doente».
Contribua doando qualquer valor Quero Doar Pois bem, nos Estados Unidos surgiu uma nova lei muito reveladora da completa perda de valores, conforme consta do Código Administrativo do Estado do Alabama. Refere-se tal lei ao «nome da criança para o registo de nascimento», mais concretamente a regra 420-7-1.04. De acordo com esta, além de os pais poderem dar à criança o nome próprio que quiserem ao registá-la, têm também total liberdade de escolher o apelido. Se um senhor Jones tiver um filho com uma senhora Wright, podem registar o filho como González, Solimão, Kowalski, Wang, Kim ou até Xuficwskt-Sad.
Esta lei, para muitas pessoas, não significa nada à primeira vista, excepto que existe total liberdade. E nem lhes parece de todo perigosa, precisamente porque eles próprios perderam completamente uma série de noções que antigamente eram elementares e que hoje não significam nada.
Comecemos por explicar isto com base num conceito fundamental da religião católica: Deus colocou-nos neste mundo para cumprirmos uma missão. Não nascemos «por acaso», mas todos somos chamados a fazer alguma coisa, daí a palavra «vocação». Normalmente, não cumprimos esta vocação sozinhos, como eremitas no meio do deserto, mas com a ajuda de outras pessoas. A vocação mais comum é o casamento, através do qual formamos uma família, a educamos e, por sua vez, ajudamos outros a formar as suas famílias. Um grupo de famílias tem antepassados comuns, daí a nossa busca por «algo» que nos distinga dos outros grupos de famílias.
No passado, esse «algo» era, por exemplo, um brasão, uma determinada forma de vestir ou uma aptidão para determinado ofício. A partir do século XVIII, porém, passa-se a utilizar cada vez mais um apelido, antes usado sobretudo pelas famílias nobres.
Uma segunda noção básica que a religião nos ensina é que esses grupos de famílias tinham, por sua vez, uma vocação comum, a começar pela família bíblica de Abraão, Isaac e Jacob, que formaram um povo destinado a preservar a verdadeira religião num mundo cada vez mais politeísta.
Esta ideia de que cada um de nós faz parte de um grupo que tem uma função social específica e de que é importante a contribuição de cada um para essa função colectiva, constitui a base da criação das nações, tendo penetrado profundamente na mentalidade europeia, ao ponto de cada polaco, por exemplo, saber que devia contribuir para ser uma pedra da muralha que defendia a cristandade contra as hordas das estepes, ou de cada português saber que devia ajudar a vocação missionária do seu país na África, na Ásia ou na América.
Neste contexto, ter um apelido não era uma questão burocrática, mas um sinal de vocação, de ter uma função, de fazer algo em conjunto com outras pessoas semelhantes. Por isso, o apelido era transmitido, era uma herança preciosa que um pai deixava ao seu filho, porque com o apelido vinham valores como a honra, o cumprimento do dever ou a defesa da tradição.
Mas o liberalismo do século XIX começou a destruir tudo isso pela raiz. Começou por dar cada vez mais importância aos desejos individuais em detrimento dos deveres colectivos. O século XX levou este movimento ao paroxismo, de tal forma que, no século XXI, já é «dogma» invocar o «direito» de fazer o que se quiser, desde que os outros não sejam prejudicados (até certo ponto!). Há aqui uma impressionante falta de lógica, pois se cada um tem certos deveres colectivos e não os cumpre para se dedicar apenas aos seus interesses, é óbvio que prejudica os outros. Uma pessoa que se recusa a defender a sua pátria porque prefere continuar na sua profissão a ganhar dinheiro, a aproveitar a vida ou simplesmente a «curtir» prazer e preguiça, é uma pedra que faz falta na muralha.
Na aparição de Nossa Senhora em Fátima, a 13 de Julho de 1917, Ela profetizou aos três Pastorinhos que «várias nações serão aniquiladas», referindo-se ao que acontecerá no mundo se este não se converter e não fizer penitência.
Normalmente, uma nação é aniquilada por meio de uma guerra brutal, por exemplo, nuclear ou biológica. Mas não é só assim que pode ser aniquilada. Se a maioria das pessoas de um país perder o sentido de Pátria e do dever colectivo, basta um problema grave – não necessariamente catastrófico – para dar início a um processo que pode acabar com essa nação. Imaginemos, por exemplo, um país fustigado por uma guerra mas cuja população não quer lutar, preferindo emigrar para o Alasca, Nova Zelândia ou Brasil. Quem fica tem de suportar um fardo muito maior, carregar uma cruz mais pesada e sofrer com a deserção dos seus concidadãos. Inevitavelmente, o país perde a guerra, é ocupado e «assimilado», como já aconteceu no passado com várias nações. Mas às vezes nem sequer é necessário o recurso às armas ou à violência. Tal foi o caso de Portugal ao entregar as suas Províncias Ultramarinas. Simplesmente desistiu delas logo após a fatídica «Revolução dos Cravos». Em muitos casos, a nossa tropa que tinha a guerra praticamente ganha no terreno, deixou-se vergonhosamente desarmar pelos bandos do MPLA, da FRELIMO ou outros. E o governo das Províncias foi entregue «de mão beijada» à cobiça desses partidos terroristas, só por meio de negociatas, só pela desistência covarde de lutar, só porque na euforia de «Abril» se evaporou repentinamente o sentido de Pátria, de dever histórico e de bem comum. Bastou o desinteresse, a traição, o egoísmo, a cegueira e a estupidez da maioria para acabar com cinco séculos de História comum.
Assim também vários países da Europa Ocidental estão à beira do ocaso. Literalmente invadidos por imigrantes africanos ou asiáticos, que não têm a menor vontade de assimilar a cultura local, não há quem a isso se oponha energicamente. É uma lástima ver as grandes cidades da nossa Civlização Europeia, com as suas avenidas e bairros mais emblemáticos completamente emporcalhados e dominados por máfias ou gangues muçulmanos ou africanos.
Algumas reacções vão começando a surgir, felizmente, mas nessas nações a maioria perdeu completamente o interesse pelos valores colectivos e pelo bem comum. Nelas prevalece um egoísmo cego que se recusa a ver como essa crise migratória é perigosa e já afecta todo o Continente Europeu. Para esses cegos interessa apenas que o seu transporte público habitual funcione, seja o motorista indiano ou paquistanês, que o entregador de pizzas chegue a horas, seja ele da Mauritânia ou do Bangladesh.
Em contrapartida, esse egoísmo e essa cegueira não estão presentes nas «culturas» invasoras que sabem muito bem zelar pelos seus interesses colectivos, impondo escancaradamente as suas leis e os seus costumes bastante selvagens nos países que vão ocupando.
E aqui voltamos à questão do uso de um apelido de família e de nomes próprios que sejam tradicionalmente nacionais. Pode parecer algo insignificante, burocrático ou até inútil, mas não é. É um verdadeiro sinal de identidade, de fazer parte integrante de alguma coisa muito maior do que a própria pessoa, de responder a uma vocação que faz parte de outra vocação maior, em suma, de estar presente nos planos de Deus.
Há cem anos, tudo o que estou a escrever neste artigo seria tão óbvio que bem poderia ter sido assinado pelo Conselheiro Acácio. Hoje, porém, as pessoas nem sequer enxergam as verdades mais evidentes.