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A solidariedade hipócrita para com Leão XIV, envolvido numa guerra contra Trump

17 de Abril de 2026

La Nuova Bussola Quotidiana

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A solidariedade hipócrita para com Leão XIV, envolvido numa guerra contra Trump

Riccardo Cascioli

 

 

            Os ataques injustificáveis do presidente dos EUA ao Papa deram às elites progressistas e globalistas a oportunidade de retomar a jogada «Leão XIV, o anti-Trump», já avançada por ocasião da sua eleição, há um ano. Jogada à qual se junta também certa parte do mundo eclesiástico.

 

            «A hipocrisia da esquerda e o seu desejo insano de proteger os seus esquemas e destruir Trump»: Foi assim que Louis «Lou» Prevost, irmão mais velho do Papa Leão XIV, há quatro dias, manifestou no Facebook a sua aprovação a um artigo que criticava duramente aqueles que hoje acusam o presidente americano Donald Trump de cometer crimes de guerra por decisões e acções que contraditoriamente aprovavam quando eram tomadas por presidentes democratas.

 

            O mesmo julgamento pode ser feito em relação às críticas a Trump pelas graves acusações dirigidas a Leão XIV. Não porque Trump não seja criticável por estas declarações – nós próprios o fizemos aqui – mas porque esta repentina solidariedade universal com o Papa cheira a hipocrisia da pior espécie.

 

            É evidente que o verdadeiro alvo é Trump e tudo o que ele representa. E mesmo que, nesta ocasião, seja o próprio Trump a dar munições aos seus inimigos, é óbvio que o tão exaltado «papel moral» do Papa não passa de argumento instrumental para atacar o presidente americano. Já outros chamaram a atenção para o facto de que quem exalta o Papa são os mesmos que ignoram ou censuram as suas declarações que não se conformam com a ideologia dominante ou que criticaram e difamaram fortemente S.S. João Paulo II e S.S. Bento XVI. E certamente também não hesitarão um momento em atacar duramente o Papa Prevost à primeira palavra «deslocada».

 

            Mas em relação a Leão XIV, o primeiro Papa americano, desde a sua eleição que tentaram colar-lhe o rótulo de anti-Trump, como se a principal preocupação dos cardeais no Conclave tivesse sido a de contrariar as políticas, reais ou esperadas, do governo dos EUA. Nos dias que se seguiram àquele 8 de Maio de 2025, quando o cardeal Robert Prevost foi eleito Papa, a maioria dos artigos da imprensa, sobretudo ocidental, procurava sublinhar este suposto antagonismo entre Leão e Trump.

 

            Desde o seu surgimento na arena política, Trump tem sido retratado como uma espécie de demónio por todas as elites progressistas e globalistas e que viram na chegada de um Papa americano, missionário num país pobre, a possibilidade de um aliado que – precisamente por ser americano – poderia ser opositor mais eficaz do que o Papa Francisco. Também este não poupou esforços para desacreditar Trump, chegando mesmo a qualificá-lo como «não cristão». 

 

            Até agora, o Papa Leão, com o seu estilo discreto, sempre se esquivou a esta tentativa de se envolver num papel político, mas eis que hoje, devido às excentricidades de Trump, surge finalmente a grande oportunidade de dar corpo a essa jogada, fazendo-se de tudo para exacerbar o confronto.

 

            São impressionantes os dados de um inquérito realizado pelo observatório de meios de comunicação Volocom, divulgados por Il Giornale, segundo os quais foram publicados 17 500 artigos em todo o mundo sobre o caso Papa-Trump, dos quais entre 93% a 96% condenam o presidente americano. Dado o tom inaceitável das declarações de Trump, não é este o dado mais interessante, mas o facto de, na esmagadora maioria dos casos, em ambos os hemisférios do mundo, se repetir o esquema «autoridade moral vs. poder político» e «retórica belicista vs. pacifismo». Em particular, é relevante a uniformidade do julgamento de quase todos os meios de comunicação da Europa com os do Irão, da Rússia e da China.

 

            Mas se é previsível essa hipocrisia na manifestação de solidariedade para com o Papa, já não é edificante constatar semelhante hipocrisia em certos meios eclesiásticos. Claro que, nestes dias, é muito fácil e não custa nada criticar Trump. Mais difícil, porém, é articular razões para uma crítica fundamentada na Doutrina Social da Igreja. Existe, de facto, diferença notória entre uma declaração como a do ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Gerhard L. Müller, e certas posições de proximidade genérica ao Papa, como a da Conferência Episcopal Italiana ou de anti-trumpismo preconceituoso, como as do presidente da Pax Christi, Monsenhor Giovanni Ricchiuti, e do arcebispo de Milão, Monsenhor Mario Delpini.

 

            Müller, em declaração publicada pelo Kath.net, afirma claramente, a respeito do tema, que «ninguém tem o direito de criticar o Papa quando este segue fielmente a missão que recebeu de Cristo: testemunhar o Evangelho da paz». Mas alarga o discurso, evocando, por um lado, a «responsabilidade histórica» que os Estados Unidos têm, enquanto «democracia construída sobre os direitos humanos fundamentais», na defesa «da paz, da liberdade e do bem-estar da humanidade no nosso mundo globalizado». Por outro lado, recorda que «o regime iraniano deve ser denunciado pelo abuso da religião (...) utilizada para justificar o assassinato de pessoas inocentes». Aliás, diz ainda o cardeal Müller, que «a instrumentalização do nome de Deus» não é prerrogativa do Irão e, com referência implícita aos Estados Unidos, recorda que «um bom fim não justifica meios perversos».

 

            De tom bem diferente são as palavras do bispo Ricchiuti que, em entrevista ao Avvenire, a 8 de Abril – portanto, muito antes do ataque de Trump ao Papa – já demonstrava profunda aversão pelo presidente americano, aproveitando como ponto de partida a ameaça que ele fez de aniquilar a civilização iraniana e chamando-o pejorativamente de «o Americano», porque «chamar pelo nome seria reconhecer a humanidade de alguém. Quem fala assim é inominável». Obviamente, Monsenhor Ricchiuti apela aqui ao «magistério dos Papas», mas esquece-o noutras questões, por exemplo, ao defender o direito de casais homossexuais à adopção.

 

            Quanto a Monsenhor Delpini, não se conteve ao declarar: «Lamento pelo povo americano que tenha de sentir vergonha do seu presidente». Tal «vergonha», porém, nunca o arcebispo de Milão (tanto quanto sabemos) alguma vez se lembrou de expressar em relação a um presidente americano católico (Joe Biden) e uma presidente da Câmara dos Representantes católica (Nancy Pelosi) que defenderam com unhas e dentes o direito ao aborto, mesmo no nono mês.

 

Publicado em: La Nuova Bussola Quotidiana

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