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São Francisco Xavier e o castigo da cidade de Tolo

03 de Dezembro de 2025

Roberto de Mattei

Roberto de Mattei

São Francisco Xavier e o castigo da cidade de Tolo

Entre os muitos episódios prodigiosos da vida de São Francisco Xavier, há um que nos lembra o amor pela justiça divina que os santos sempre tiveram: o castigo que invocou do Céu sobre a cidade de São João de Tolo, que havia caído na apostasia.

São Francisco Xavier, nascido em 1506, de família nobre, no castelo de Xavier, em Navarra, estudou em Paris, onde o encontro com Inácio de Loyola mudou a sua vida: aluno brilhante, destinado ao sucesso académico, foi conquistado pelas palavras do futuro fundador dos Jesuítas: «De que serve, Francisco, conquistar o mundo, se se perde a alma?». Ordenado sacerdote, participou no nascimento da Companhia de Jesus e, em 1540, sem contar, foi enviado por Santo Inácio para a Índia portuguesa como missionário em lugar de um confrade que tinha adoecido. Tornar-se-ia o apóstolo das Índias.

Chega a Goa em 1942, após uma viagem de treze meses, e dá início a um intenso apostolado: chamava as crianças com uma sineta, dava-lhes catequese a cantar, e visitava as aldeias mais remotas, traduzindo os fundamentos da fé para as línguas locais. Durante dois anos, percorreu o sul da Índia a pé ou em pequenas embarcações, enfrentando guerras, fome e perigos vários. Chegou a escrever que lhe doíam os braços de tanto baptizar: só num mês, baptizou 10 000 pescadores macuas.

Entre 1545 e 1547, expandiu a sua missão para novas regiões da Ásia, chegando ao Japão. Fez múltiplas e extenuantes viagens, atravessando mares tempestuosos e montanhas cobertas de neve. Quando, em 1551, regressou à Índia, deixou mais de 2000 cristãos no Japão. O seu olhar voltou-se então para a China, mas encontrou obstáculos, e até calúnias, por parte de portugueses hostis; ainda assim, conseguiu chegar, em 1552, à ilha de Sanchoão, na esperança de entrar clandestinamente em Cantão. Naquela ilha deserta, conheceu a fome, o frio e várias doenças, mas continuou a rezar, afirmando que, nesta altura, tinha maior desejo do Céu do que da missão. Atingido por uma pneumonia, morreu a 3 de Dezembro de 1552, repetindo: «Jesus, filho de David, tem piedade de mim». Foi sepultado com cal; porém, dois anos depois, o seu corpo foi recuperado: estava intacto e foi levado para Goa, onde é venerado na igreja do Bom Jesus. Canonizado em 1622, São Francisco Xavier é considerado um dos maiores missionários da história: estima-se que tenha baptizado um total de cerca de 40 000 pessoas.

Foi durante este período missionário de São Francisco Xavier que teve lugar a conquista portuguesa das ilhas de Morotai, que faziam parte do vasto território das Ilhas Molucas, na actual Indonésia. Apesar de se encontrar a cerca de 2000 milhas de distância dessas ilhas, Francisco foi um dos protagonistas da empresa militar portuguesa, tendo nela participado de forma pessoal, como resulta dos testemunhos da época e como atesta a própria bula da canonização.

As ilhas de Morotai eram governadas por muçulmanos. Só na cidade de São João de Tolo, numa dessas ilhas, Francisco converteu milhares de habitantes, enviando depois o Padre João Beira, seu confrade, para completar a obra de evangelização. Acontece que dois príncipes muçulmanos uniram forças para reconquistar a cidade, sitiando-a e exigindo que os seus habitantes renunciassem à fé cristã; e os ilhéus, seguindo a apostasia dos seus magistrados, expulsaram o Padre Beira e destruíram as igrejas e cruzes construídas por Francisco Xavier. Nos dias seguintes, a ilha foi assolada por uma grave fome e, mais tarde, por uma epidemia, mas tal não bastou para comover os corações dos habitantes, obstinados na renegação da fé.

Alertado do que se estava a passar, São Francisco Xavier dirigiu-se a Bernardino de Souza, o governador português da cidade de Ternate, instando-o a punir os actos de violência que haviam sido cometidos em São João de Tolo contra os poucos ilhéus que haviam permanecido fiéis ao cristianismo. Não podendo deixar a sua fortaleza sem defesas, o governador apenas conseguiu disponibilizar vinte soldados portugueses, aos quais se uniram quatrocentos aldeões, número insuficiente para escalar a falésia sobre a qual se erguia a cidade, rodeada de trincheiras fortificadas.

Ao chegarem ao sopé da falésia, os portugueses intimaram os revoltosos a render-se, mas apenas receberam palavras de desprezo e de escárnio. Nesse momento, Francisco Xavier, que estava com eles, inflamou-se de santa ira e invocou o castigo de Deus sobre São João de Tolo. Pouco depois, o sol escureceu, a cidade ficou envolta em trevas e, de uma montanha situada a nove milhas de distância, uma cratera aterradora começou a expelir nuvens de fumo e fogo, ao mesmo tempo que a ilha era abalada por terramotos e inundações. A fúria dos elementos durou três dias e três noites, e muitos habitantes foram engolidos pela terra e pela água, ou incinerados pela lava que irrompia do vulcão. Terminados os abalos, o exército português conseguiu entrar em São João de Tolo, cujos sobreviventes regressaram à lei de Cristo, que tinham abandonado. Francisco enviou o Padre Beira novamente para a ilha e, numa semana, o sacerdote acolheu 15 000 pessoas na Igreja.

O castigo de São João de Tolo é relatado por biógrafos antigos e modernos, como os padres Giuseppe Massei (Vita di S. Francesco Saverio Apostolo delle Indie, Roma, 1682, pp. 309-314) e Giorgio Schurhammer (San Francesco Saverio, apostolo dell’India e del Giappone, Milão, PIME, 1947, pp. 270-271), mas também por um dos primeiros ciclos pictóricos inspirados na vida do santo, executado por volta de 1619 por André Reinoso para a sacristia da igreja de São Roque, em Lisboa.

Uma das vinte telas que compõem a obra de Reinoso intitula-se «Castigo da cidade de Tolo». A pintura retrata a ilha a converter-se e a ser catequizada por São Francisco Xavier; noutra cena, o exército português invade a cidade, na sequência de um sonho do seu comandante. Ao centro, em primeiro plano, São Francisco Xavier, de braços abertos, invoca a ajuda do Senhor, enquanto, em baixo, os rebeldes fogem, assustados com o castigo divino.

Este episódio prodigioso da vida de São Francisco Xavier, santo que se comemora no dia 3 de Dezembro, recorda-nos que a misericórdia infinita de Deus deve ser conciliada com a sua infinita justiça, e que quem deseja adorar o Senhor em espírito de verdade não deve renunciar a nenhum destes dois atributos, que convergem na perfeita unidade e simplicidade divinas.

 

Publicado em: https://robertodemattei.substack.com/p/san-francesco-saverio-e-il-castigo-della-citta-di-tolo

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